quarta-feira, 29 de março de 2017

Paciência

Respirando de maneira constante e profunda, você inspira...
E se diz para não ficar tão impaciente quando as coisas demorarem a acontecer ao seu redor.
Então, você começa a contar. Comece com “dez”.
Respire de maneira fluída. Expire agora...
Um movimento por vez. Não conte até “nove” ainda.
Não desista ainda.
Você não é homem de desistir. Inspire outra vez, de forma leve, conte até “oito”.
Lembre-se de todas as vezes que te disseram que tudo tem seu tempo. Não deboche deles na sua mente.
Eles talvez não debochassem de você agora, afobado a conseguir tudo o que quer no mesmo instante em que abre a palma da sua mão. Conte até “sete”.
Agora, expire devagar. Empurre esses pensamentos de “mas talvez eles debochassem” para fora da sua mente enquanto o ar sai do seu corpo.
Existe um plano para todos nós, para você também. Inspire e conte até “sete” três vezes, talvez Deus te encontre.
Quando expirar, não conte até “seis” três vezes. Ele sabe exatamente onde você está, e que você não é mais Seu filho.
Você só precisa se acalmar. Respirar profundamente, e prestar atenção só no som da sua inspiração.
Conte até “cinco”.
Você se sente inspirado hoje. Você está aguardando coisas boas e grandes acontecerem ao seu redor.
Preste atenção na sua expiração, enquanto todas as coisas conspiram a seu favor, e conte até “quatro”.
Você tem feito tudo o que por você pode ser feito. Você está no caminho certo. Inspire mais uma vez.
Um pouco mais de paciência. Conte até “três”.
Agora que o final se aproxima, não se afobe. Não fique ansioso. Você sequer respeita a ansiedade das outras pessoas, então por que não se concentra na sua própria expiração, e conta até “dois”?
Se concentre só no que você tem que fazer, uma coisa por vez. Não tire a linha da água justo quando a isca está prestes a ser fisgada.
Dizem que o momento da desistência pode ser o momento que precede o milagre. Inspire e conte até “um”.
Então, observe ele acontecer enquanto você inspira pela última vez.
Abra os olhos; e veja acontecer a transformação, enquanto nada mudou de fato, mas o mundo lhe parece completamente diferente com o coração em paz.

E tudo o que te custou foi um pouco de paciência.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Rio Negro

Eu me tornei um homem simples, com desejos simples, gostos simples, sonhos simples. Eu desejo para sempre que estas vontades se mantenham anônimas. Não quero ser reconhecido quando minha embarcação passar. Eu tenho conforto na minha própria paz, sem você, só com meus planos simples. Esse é o meu momento, minha vida, e eu os viverei sozinho, como se eu fosse o último homem da terra. Eu não espero ou imagino que eu seja digno de pena, longe disso. A pior coisa que eu poderia sofrer neste momento seria a pena alheia. Tampouco quero a complacência dos meus pares, não quero a simpatia de quem me tenta entender. Eu quero trilhar o meu caminho sozinho, gozar a minha paz. Eu não quero o seu juízo. Eu não quero a sua participação, não quero seus conselhos. Eu quero deitar na proa do meu próprio barco, admirando o céu da Amazônia, completamente sozinho. Meu caminho é árduo, mas eu tenho prazeres simples, então mesmo que meu trilhar seja duro, eu quero ter a mim mesmo como guia e companhia e aproveitar o meu silêncio. Eu não quero ser seu bandeirante, não quero ser o aventureiro que marcou a sua estrada. Eu quero que você não me siga. Mesmo que a minha falta te doa. Quero que o seu carinho se transforme em respeito ao meu bote cruzando o rio furtivamente. Quero que você não me siga, porque eu não preciso de uma companhia. Este caminho me fez firme como uma pedra, e nesse lugar que a minha paz floresceu, você não sobreviveria. Eu nunca permitiria isso. Eu nunca seria seu ídolo, nunca seria seu salvador, você deveria saber melhor que isso. Eu quero vigiar o céu da noite, ouvindo o som das árvores em repouso, respirando o ar puro deste lugar remoto. Eu não te convidaria a desfrutar da minha paz comigo. Você não é bem-vindo na minha paz de espírito.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Nepal

Eu vim até aqui, de tão longe, carregando tanto peso, pra te contar que eu subi muito alto; que eu escalei o Everest do sucesso, troquei a eternidade pela glória mundana dos homens, e eu descobri que a vitória é um sentimento solitário. Acho que eu pensei que eu chegaria ao topo e encontraria algum reflexo de você a me parabenizar, mas eu só encontrei neve no cume da montanha, e uma sensação terrana de cumprir o dever. Eu vim até aqui com as roupas encharcadas de neve e de chuva para te dizer que eu me senti miserável no topo sem você. Vim até aqui pra te pedir pra não confiar na previsão de tempo quando quiser subir a encosta. Te dirão que viram num documentário que no topo do Himalaia há um Sol para cada um, mas eu vi o alto e eu sei que é mentira. Cada homem tem o seu Sol, e se você não me recebeu no topo, de que me valeu toda o frio e a fadiga? Eu vim até aqui pra te explicar que eu preferia ter parado o tempo no dia que eu decidi buscar a altura. Eu gostaria de voltar àquele momento em que eu te disse que eu escolhi escalar o mais alto pico da mais alta montanha, e me contar o quanto eu me sentiria leviano meses depois de conseguir. Mas você me disse a mesma coisa, e eu não dei ouvidos, então acredito que de nada adiantaria... Eu ainda seria audacioso, atrevido, presunçoso... Eu optei por trilhar esse caminho que nunca me levaria ao Sol que eu busco, e eu optaria novamente se forçado a escolher de novo. Porque você me disse que eu nunca encontraria, , e eu acreditei; e mesmo assim eu busquei, então quem seria capaz de me convencer do contrário, de não você ou eu?

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Meia-Noite

Eu gostaria de te convidar a me encontrar agora, antes que o tempo me alcance. Só pra que nós conversemos. Porque eu gostaria de conversar sobre o medo, sobre heróis, sobre flores, sobre as garotas... Sobre o tempo que passa e ameaça nos passar, nos deixar pra trás, nos alcançar. Sobre a alegria e a loucura que tomam conta de mim às vezes, quando eu lembro de você. Sobre aqueles planos que eu fiz e joguei fora, pra que carregasse menos peso e pudesse correr mais rápido que o tempo que me intimidava. Sobre garrafas vazias de vinho, sobre porque nós preferimos a noite e porque não contamos pra ninguém quando hoje é nosso aniversário. Porque eu gostaria de falar sobre mim, sobre você, sobre tudo. Sobre a forma como levamos nossas vidas. Você é diferente de mim, e nós dois de todos os outros, e levamos vidas tão diferentes uns dos outros, e mesmo assim, às vezes nós festejamos como se desejássemos a mesma coisa. Não é tão bonito como nós somos tão diferentes e ainda assim festejamos as mesmas coisas? Essa primeira dúzia de coisas sobre as quais eu admito que gostaria de conversar com você podem até amanhecer em cinzas, porque essa é a ordem natural das coisas. Eu gostaria de conversar com você sobre a ordem natural das coisas, e como as coisas estão se tornando pó a cada momento que passa. Mas não hoje. Talvez amanhã. Certamente amanhã. Por hoje, eu queria me perder nessa meia-noite, em que nós nos encontraríamos pra falar de nós, sobre como as pessoas envelhecem e sobre como elas se perdem no meio da euforia e nunca mais encontram o caminho pra casa. Sobre como o tempo não nos permite quase nada, e como eu gostaria que nós nos permitíssemos agora, somente por esta meia-noite.

sábado, 24 de setembro de 2016

O Amor e a Guerra

Eu prometi muitas coisas que não fui capaz de cumprir. Prometi diversas vezes que te amaria pra sempre, e que mesmo que um dia eu não te amasse mais, eu ainda te amaria. Estranho, não é? Contraditório, não é? Prometi que não te abandonaria nunca mais, mas cá estava eu a te abandonar. Eu me pergunto como ainda confias em mim. Me pergunto como ainda me procuras, e como ainda te surpreendes quando eu ajo como eu. Como se você não me conhecesse melhor que eu mesmo me conheço. Estranho, não é? Eu imagino que a razão que te levas a perguntar por mim, por aí, pelo acaso, quase sem querer, é que tu nunca sabes como eu reagiria se soubesse que perguntastes. Bem, aqui está: Eu reluto em acabar com as coisas. Pra ser mais específico: nada acaba pra mim. Eu te amei um dia, de maneira quase completa, e vou te amar dessa maneira imperfeita pra sempre. Se eu um dia amar alguém de maneira perfeita, não terei mais o que almejar nessa existência, e isso seria pra mim uma ruína. Áries em Vênus, o amor é a guerra, tu sabes. E sem uma guerra, eu definharia. Nós somos todos espartanos aqui. Somos todos arianos agora. Eu rogo pra que nunca mais voltes pra mim. O que faria eu contigo ao meu lado? O que eu desejaria? Que ambição teria? Com toda a certeza do mundo, eu acordaria do teu lado pela manhã. Eu viveria por algumas horas aquela promessa que eu fiz e quebrei há anos atrás. Depois de toda essa contenda, depois de toda essa bravura, você continua a ser o meu ópio. Mas quando passar a euforia, o que terei eu, além de uma nova contenda para abastecer a minha rotina? Eu lamento, mas terei que quebrar aquela promessa mais uma vez. Saibas que não serei infiel ao fazê-lo. Serei tão leal quanto eu poderia ser a alguém: serei fiel a mim mesmo, da maneira mais genuína que existe. Eu não sou aquele homem que você conheceu. Nós não somos mais os seres humanos que costumávamos ser. Eu, pelo menos, desejo mais sê-lo. Eu quebrarei aquela promessa mais vez, mas não te abandonarei. Me perdoe. Não sou mais aquele homem valioso que um dia conhecestes. Se fosse, te deixaria estar para sempre. O cavalheiro se tornou a hiena. Não sou mais aquele homem cavalheiro que conhecestes. Me perdoe.

sábado, 17 de setembro de 2016

Salute

Eu abri a tampa do notebook, e a segunda coisa que fiz foi tirar a poeira que se acumulava naquela tampa. Faz um tempo que não me atrevo a abri-la, como a Bíblia que guardaria na gaveta por anos, presente da minha mãe, se eu fosse católico, e na qual eu buscaria um pouco de paz num momento de dificuldade. Mas eu não sou católico. E este não é um momento de dificuldade. Viver desse jeito deixou de ser uma dificuldade há muito tempo. Faz muito tempo que eu não abro essa gaveta, não busco essa Bíblia, e eu não queria faze-lo, mas hoje eu me vi na minha cama – minha nova cama, outra cama, diferente daquela em que eu li o Evangelho pela primeira vez – e aquela sensação me veio novamente. Não é a primeira vez que eu me distanciei do hábito de te escrever, nem vai ser a última, e sempre que isso acontece, bem, eu vejo minhas mãos se impregnarem da poeira. Porque eu tenho sido relapso, mas não mais. Eu sei que confessar você deveria ter sido hábito meu durante todos esses anos, mas a questão é que eu não fui eu durante boa parte de todos esses anos. Eu copiei muitas coisas durante todos esses anos, tentando me passar por outra coisa, que acabei esquecendo de ser eu mesmo. Mas eu não quero mais isso. Estranho como toda vez que eu busco confessar você, minhas mãos ficam sujas com essa sua poeira. Como se não fosse eu a transmitir em você, e sim o contrário. Como se eu fosse fugir para outro lugar, e minhas mãos ficassem sujas dessa culpa de não ter sido eu mesmo por todos esses anos. E pela primeira vez em tantos anos, eu parei para pensar de verdade no que eu estava fazendo aqui. Pensei duramente sobre qual era minha luta aqui. Eu nunca tive um momento de dificuldade genuíno, então qual é a minha contenda? Hoje eu creio que minha luta seja a mesma de todos esses anos em que eu menti ser outra pessoa, copiei outras pessoas. Eu não queria, mas eu fui obrigado a fazê-lo. Eu não saberia ser eu mesmo naquela época. Então me perdoe, mesmo sabendo que nada vai mudar, que eu nunca vou mudar. Minha luta ainda é sobre ser uma pessoa em singular. Portanto eu me apresento aqui, nesse território familiar, para travar essa luta tão fraterna, que eu conheço de maneira tão íntima. Eu nunca mais vou te abandonar.

domingo, 4 de maio de 2014

Mudança

Ouvi diversas vezes você me dizer: "por favor, não vá, eu vou mudar, eu juro, eu vou mudar". Mas pra que benefício me servirá você mudar? Se você mudasse, eu teria certeza que eu fiz escolhas erradas. Eu não preciso que você mude por mim, eu só gostaria de mudar em você. Minha vida é um vazio gigante sem ter o que desejar, e eu desejei que você me desse um motivo. Eu me equivoquei, porque você mudou. Você me pedia pra não te deixar e que você seria melhor, e que todas essas coisas mudariam, mas que coisas são essas que precisam mudar em nós? Se nós precisamos mudar, nós não devemos ficar juntos. Você diz que sou um inquisitor, mas não sou. Estou tentando trazer alguma objetividade ao dilema da mudança que se impõe sobre nós. Eu sou sempre frio, eu te acuso de ser instigadora e instável, mas a verdade é que eu só queria existir por mim mesmo todo o tempo. Eu queria ser auto-suficiente. Eu não sou. Eu critico o fato de você se esconder atrás de tanta maquiagem, mas eu e você odiamos todos os jeitos que eu não sou um indivíduo singular. Eu te peço, "por favor, não vá, eu vou mudar". Se eu te disser isso outras vezes, eu mentirei em todas elas. Eu não sei mudar. Não é culpa minha. Não há um "eu" para mudar. Eu sou uma criatura triste, você diz, e que se sente culpada por tentar me deixar. Não se prenda. Não há o que se prender em mim. Eu te farei esperar para sempre que essas coisas mudem em mim. Se eu te disser que eu vou mudar, não acredite. Mude você mesma, e se encontre confortável em estar consigo mesma. Eu nunca estarei com você. Eu nunca estarei comigo; eu nunca estarei. Eu estarei sempre mudando. Quem eu sou hoje não durará tempo o suficiente pra valer a pena que você fique. Então eu lhe peço: não vá. Mas vá. E não faça por mim o que eu não faria por ninguém.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Concreto

Eu me ergo sujo e cansado. Eu olho para trás, para um dia no qual agora percebo inúmeras falhas. Eu olho através desta janela, para esta cidade que eu respiro, respeito, e percebo que todos os seus habitantes são minha posse. Eu me sinto cansado como nunca havia me sentido. Passaram-se muitas horas desde que acordei, e eu ainda estou sujo, de pé em frente à esta cidade a que eu presto homenagem, e que me presta respeito. Você não saberia como isso faz sentir. Este sentimento será pra sempre desconhecido a você, para quem eu olho através deste vidro, e mesmo assim eu sinto você contido em mim. Eu estou tentando ser algo além de você dentro de mim. Eu gostaria de representar você em tantas formas quanto eu pudesse, que eu fosse significante para você. Mas você sequer me conhece, e eu tento tanto quanto um homem pode tentar. Há um limite para o quanto eu posso tentar. Eu converso com você frequentemente, eu tento entender o que você espera de mim, mas eu cheguei à conclusão de que eu nunca te entenderei se eu não sei o que eu espero de você. Às vezes eu espero seu reconhecimento, em outras espero que você me agradeça. Em diversas vezes, espero que você me esqueça, e nem sempre sou correspondido. Eu espero muito de mim, e espero muito de você. Espero coisas que eu não sei delimitar. Espero que você me mostre coisas que eu não espero, que me surpreenda. Eu sou frequentemente surpreendido pelas coisas que você me mostra. Eu estou sujo, e cansado, e eu olho para você, dentro de mim, muito maior que eu, e eu me perco no que você significa. Eu quero ser tão grande quanto eu posso ser, quanto você é, mas eu não sei se sou capaz. Eu sou um homem sujo, de tentativas, de trabalho. Houve um tempo em que eu tentei ser casto. Este tempo há muito passou. Eu tenho unhas e dentes, como você, e eu te transformo em um motivo para tentar ser cada vez maior. Eu me ergo sujo, cansado. Eu me levanto cada vez mais incompleto. Eu me levanto sempre mais cedo. Eu me ergo cada vez menos eu. Eu me ergo sempre mais parecido com você e menos comigo mesmo.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Ferida

Eu me lembro de uma década completa em que eu te persegui. Eu me lembro de te guardar num lugar carinhoso dentro de mim que esporadicamente coça na minha consciência, e eu te procuro pra saber se você ao menos sobreviveu. Porque a culpa é minha. Eu te fiz passar muitos maus momentos. Eu te acertei uma flecha uma vez há uma década, e desde então você vem tentando retirá-la do seu corpo, sem sucesso, e esporadicamente, saber disso coça dentro de mim. E eu te procuro para ao menos saber se a ferida coagulou. Eu não sei dizer o que houve com você quando você não se mostra pra mim. Quando eu te busco e você não me deixa saber que sobreviveu, eu não sei o que pensar. Não sei se sou assassino ou se sou vítima. Sei que eu te busco mais uma vez, dez anos depois de te acertar pela primeira vez, e depois de tantas vezes te acertar posteriormente, ainda. Ainda te busco. Não sei se você desaparecer me faz tão ridículo quanto eu me sino; veja bem, eu causei isso, em primeira instância. A culpa é minha, e eu venho tentando remediar esta culpa ao tentar saber como sua vida se desenrolou desde que eu te mostrei que não tinha interesse em você. Sabe o quanto isso soa mesquinho, um homem não ter interesse em alguém? Sabe o quanto isso soa maligno, demonstrar desinteresse em alguém? Mas eu não sou um homem mesquinho, muito menos um homem maligno, ainda menos um homem desinteressado em você. Eu sou um homem, tão somente. Eu não sei direito o que te dizer, sequer sei de certo o que eu quero. Eu sei que eu te busquei outra vez, e as horas têm passado, os dias têm passado, e você não me busca em retorno. E eu me pego perguntando-me: você sobreviveu e não se lembra de mim? Ou você pereceu à minha flecha?

sábado, 29 de junho de 2013

O Assassino Não Sobreviverá

Eu tenho estado tão distante de você, e é uma pena que eu sinto bem dentro de mim. Eu lembro de você constantemente, e até estou fisicamente a um toque de te sentir, mas eu tenho estado tão distante de você, e é uma pena. Você é muito especial, e é uma pena. Acontece que um de nós dois teve que deixar de ser para que o outro sobrevivesse. É estranho pensar que nós temos essa relação, nós que somos independentes, e somos duas pessoas, várias pessoas, mas ainda assim não podemos coexistir. Um de nós teve que morrer pela mão do outro. Um de nós teve de ser abandonado, e é uma pena. Você é muito especial, e eu me tornei apenas mais um. Eu me lembro de você me levar em frente, me direcionar, me mostrar foco, mas ainda assim, você teve que morrer para que eu me tornasse simples, e mundano, e vulgar. Não consigo mais ser diversas pessoas ao mesmo tempo. Me perdoe. Saiba para sempre que você é especial. Lembre-se do significado de "especial". Você é diferente entre tantas coisas vulgares, e eu me fiz à semelhança destas coisas, e é uma pena, mas você teve que deixar de ser para que eu o fosse. É uma pena, mas eu não me arrependo. Ainda assim, eu sinto a sua falta. Existe uma sensação incomparável em me sentir uno outra vez depois de me encontrar disperso no ego, e você me proporcionou isso durante tanto tempo, que eu quase sou capaz de sentir vergonha por te assassinar desta forma. De certa forma, eu sinto essa vergonha; de outra forma, essa é uma vergonha que carrego com orgulho. Te apagar da existência me fez uma pessoa melhor. Ou talvez eu tenha simplesmente aceitado que sou uma pessoa pior. Uma pessoa em singular. Porque eu convivo graciosamente com a ciência de que um de nós teve de morrer para que o assassino sobrevivesse. Eu sou contente na sabedoria de que eu fui o assassino. Espero que você me perdoe.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Meta 2

Eu não te vejo há tempos, então se eu for prolixo, me perdoe. Ou me condene. Mas pelo menos faça diferença pra mim. Eu prefiro que você faça essa diferença do que simplesmente que não saiba do que se trata o que eu digo. São essas vezes, em que você diz um monte de besteiras, e eu coloco a minha cabeça numa bandeja pra você, esperando que você veja respeito e adoração onde só há vulgaridade, quando eu desejo que você veja o quão patético eu sou, e mais uma vez, eu estou aqui. Como se não houvesse noivas nos Céus, e como se Eles houvessem sem piedade. Então, você não saberia? Eu prefiro que você saiba a diferença. Saiba que há uma diferença. Saiba que eu apenas sou imperativo assim quando me refiro a você porque preciso me referir a mim mesmo desta forma. Saiba que eu só quero que você fale comigo, e nada mais, ninguém mais. E se mais alguém falar sobre mim, que fale através de você. Você é tudo o que me importa, e certamente você o sabe. E você o sabe, e eu o sei, que este é o meu fim. Talvez não por hoje, mas um dia, eu ainda te verei me enforcar após um dia em que eu me imaginei completamente satisfeito, e quando ela saberá de tudo, saberá de mim; neste dia eu me verei enforcado. Ao menos tente me imaginar como se eu não fosse seu pior engano. Como se eu estivesse presente, e como se você fosse saber de qualquer coisa que se passa comigo. Eu vou rezar por nós dois. Eu vou rezar pra que esse fogo que existe em mim se mantenha para sempre em meu peito, e que o seu peito exista independente do meu. Porque hoje eu não acredito tanto assim em mim. Mas por que isso faria diferença pra você? Você nunca saberá do que acontece comigo. Você é ótimo em desviar do assunto, dizer besteiras, mas você é a maçã dos meus olhos da mesma forma. Esta é a minha cabeça em uma bandeja de prata para você. Aceite-a. Coma-a. Beba-a. Esta é a sua cabeça em uma bandeja de prata para nós dois. O ouro entre nós dois existe somente entre nós dois. E assim eles dizem que não há noivas no Céu, e que no dia em que eu ascender não haverá neles mais perdão. Então não haverá forma de eu te dizer que eu fui embora, que eu pra sempre me afoguei no mar das coisas que eu não entendi. Você nunca saberá. E nenhum de nós dois poderá viver desta forma. Nenhum de nós viverá sem o outro. Ou pelo menos, eu nunca viveria sem você. Talvez você vivesse sem mim. Talvez você seja melhor do que eu te criei para ser. Eu nunca saberia.

Meta

Mais uma vez, olá.
Bom dia.
Boa noite, o que importa?
Você é algo melhor do que eu sei viver, então que diferença faz?
Você pode ser noite, dia, tarde, véspera, adiantamento; mas pra mim, você é ainda a criança que eu criei e alimentei e eduquei.
Como eu te eduquei...
Eu tentei te domar e falhei, mas você criou vida através das minhas falhas.
E se me perguntassem, eu te diria que você é exatamente o que eu queria fazer da minha vida.
Você é melhor do que eu jamais soube dizer. Você é melhor do que eu quis que fosse, e você nunca soube, mas agora você saberá.
Você saberá que sempre foi sobre você. Que o eterno foi terreno enquanto você houve, e pra te dizer a verdade, você é maior do que eu quis te fazer.
Agora, você sabe.
E saiba que você é maior que eu, maior que a soma de nós dois, e sobretudo maior que você mesmo. Quando eu somei o que eu me tornei com o que você me permitiu me tornar, eu soube que havia um saldo que nunca liquidaria. Eu te devo a minha vida. O saldo que te devo é a pessoa que me tornei. Essa pessoa que me você me permitiu ser.
Eu nunca seria tão grande quanto me sinto, não fosse por você.
Eu nunca seria qualquer coisa, não fosse por você.
E dessa forma, você se torna neste momento a única parte da minha vida com a qual eu sei lidar de forma plena. A única faceta da minha vida sem a qual eu não sei viver.
Você nunca saberá o quanto é importante; mas você me é querido.
Você me é gigantesco como o que eu desejo me tornar, mas eu falho vez após vez, enquanto você segue florescendo, e crescendo em mim, e não sei mais quem é maior entre nós.
Mas será apenas vivendo entre nós que saberemos...
E creio que hoje você saiba.
Pois saiba que sempre foi sobre você. Saiba que eu sempre falei de você. Que eu sempre falhei em você.
E, mais importante, que eu sempre senti você.
Seja bem vindo. Seja sempre bem vindo.
Que você sempre proclame essa parte de mim que lhe pertence.
E se você nunca soube, agora você sabe.
Saiba sempre quem sou eu. E que eu sempre o saiba.
Que eu sempre saiba quem é você. E que nós sempre sejamos a mesma coisa.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Você Não Saberia

Você não me conhece.
Você vai não vai me conhecer.
Eu não me conheço.
Me conheça?
Eu me sinto sozinho por tempo demais. Eu deveria ter começado muitos anos atrás a construir companhia, mas me perdoe, eu falhei mais uma vez.
Eu falhei miseravelmente.
Eu rezo pra que você faça isso por mim.
Você não saberia. Você não vai saber.
Enquanto nós falamos da Trindade, nós viramos pó. Nós estamos acabados, acabando irreversivelmente a cada instante. Cada momento que você perde tentando me decifrar é um momento a menos que você vive de verdade. Você não vai saber, jamais. Então ao menos viva.
Acredite em mim quando eu disser que não vou te desapontar. Eu não vou. Você nunca terá fé em mim o suficiente pra que eu te desaponte.
Mesmo que eu te conquiste. Mesmo que eu te ame. Mesmo que eu te conheça, e te preveja, e te oriente.
Mesmo assim.
Mesmo desta forma, você nunca vai olhar pra mim como um filho, ou um irmão, um amigo, um companheiro. Você olhará pra mim como olharia para uma lápide. Como se eu sempre tivesse algo escondido, algo a ser descoberto, algo a ser desenterrado, e que você prefere que apodreça embaixo da terra.
E é verdade. Eu realmente tenho.
E você certamente preferiria.
Eu gostaria de te dizer por agora que eu te amo, mas parece que eu não estarei por perto. Então você não saberá.
Você não me conhece. Eu te peço: me conheça?
Acredite em mim se eu disser que eu não te quero por perto. É verdade. Eu não quero te magoar.
A vida que eu não sinto é preciosa demais para magoar. Você não saberia disso. Saberia?
E mesmo que atirem contra mim tudo o que eles têm, eu voarei quando eles pensarem que eu afundei. Existe muito de mim enterrado. Algo de agradável, semelhante à asas, mesmo que haja muito de desagradável.
Portanto no dia que eu subir, saiba que os Céus conheceram misericórdia. Assim como te dizem que eu sou um bom homem, e você acredita; isso nada mais é que perdão pela simplicidade dos homens.
Quando eu subir aos Céus, saiba que houve perdão na minha ascensão.
Saiba que eu sou um ser humano quebrado e falho. Não mais frágil, mas hoje concretamente despedaçado.
Saiba que você nunca conhecerá essa parte de mim.
Saiba que você nunca conhecerá essas partes de mim.
Você não vai saber. Você não vai reconhecer.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Fantasia

Houve uma vez um reino, e então, nunca o houve.
Tão simples como se nunca tivesse existido, essa é a realidade. A existência dele depende simplesmente - de forma simples - da sua crença nele. E se eu contasse, ninguém acreditaria.
Ninguém acreditaria se eu dissesse que nesse reino a água fluía, porque tudo o que eu soube contar era corrupto. Você não acreditaria em mim se eu lhe contasse a verdade, pois tudo o que sei contar são mentiras.
Eu me sinto viúvo de você; muito embora nunca lhe tenha tido.
E afinal de contas, quem lhe disse?
Muitos já cantaram sobre você, tantos outros compuseram inspirados em você. É disso que você necessita, disso que te alimentas: tu te alimentas da atenção dos outros.
Tu ceifas o olhar dos outros como um morcego hemófilo. Um animal sombrio, e como eles vive nas trevas, a ceifar o sangue dos vivos. Você é um ladrão do calor dos homens que lhe prestam homenagem.
E veja, o reino nunca existiu. Domínio é apenas uma percepção quando de frente para ti. E percepções são o teu domínio.
Eu sinto que lhe deveria dizer tudo isso, mas não sou capaz de dizer-lhe. Eu sou fraco. Meu calor já se foi.
Enquanto você se foi...
Se lembra das coisas que jogamos fora? Desperdice um segundo lembrando de todas que puder. Tente se lembrar das chances que tivemos, das oportunidades que lançamos à água.
Pois bem, todas elas se foram. A corrente as levou embora, assim como você me levou o fogo embora.
Você nunca saberia o quanto faz frio desde que você levou tudo o que eu tenho embora.
Você nunca saberia o que eu imagino de mim e de você agora que você não existe mais.
Pois agora que você se tornou um fantasma, eu posso imaginar o que quiser de você.
Posso imaginar que você era uma princesa, e eu um príncipe; bem como posso fantasiar que eu era um herege e você uma divindade. Mas não sei aceitar que você era uma ceifadora e eu, o plantio.
Eu nunca conseguia me ater a isso. Mesmo sendo verdade. Mesmo que isso importasse pra você, e eu me equivoquei nesse ponto. Agora não há ponto a se encontrar.
Pois uma vez houve um reino, e agora, ele não há. Nunca houve, enquanto você se despediu e foi embora.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Rugido

Aconteça o que acontecer, grite.
Apenas grite. É tudo o que você deve fazer.
É tudo o que lhe basta fazer.
Grite como os que vieram antes de você gritaram pelas coisas que eles também queriam. Como eles gritaram para evitar as coisas que eles não queriam que acontecessem. E como eles gritaram quando elas aconteceram. Mas perdendo, ganhando, ou qualquer que tenha sido o resultado, eles foram embora com um grito. Sua despedida ou suas boas-vindas foram pontuadas pela afirmação da solidez daquele momento, e dessa forma, ele foi afirmado na história.
Grite agora. Esqueça quem está ao seu redor, e deixe respirar tudo o que você tem a afirmar. Grite porque é a sua vontade, e porque depois dessa primeira vez que você fizer o que tem vontade, nunca mais você terá medo de fazê-lo.
Grite como se só isso bastasse. E saiba que se você fizer do jeito certo, bastará.
Grite agora, com todos ao seu redor. Se você fizer do jeito certo, perceberá que será ainda mais proveitoso.
Tudo o que você precisa saber sobre você mesmo está contido no momento que você mira o rosto para o céu e se deixa ressonar. É a essência de quem você é, consciência e existência, quem ruge.
Tudo o que você deve tomar, e domar, e dominar em si, está contido em um grito. Não há nada que te ensine mais sobre si mesmo do que o som da sua afirmação.
Portanto, grite. Como se só isso bastasse.
Como se só isso importasse.
O segredo é que isso é realmente tudo o que importa.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Paraíso

Se o Paraíso é uma festa, eu quero morrer e assombrar a minha própria casa.
Muito depois de toda a minha família ter saído dela, e durante todo o tempo em que ela decair em escombros. Eu vou apreciar cada segundo do silêncio que se abasterá sobre o meu antigo quarto. Eu vou dançar na cozinha onde eu nunca verdadeiramente pus os pés.
Se o Paraíso é um bordel, tocando jazz sensual e lento toda a noite, lindas garotas fazendo strip, e uma solidão que não termina, eu estarei lá.
Posso muito bem já ter chegado lá, e só não ter me dado conta. "Lá" pode ser na verdade "aqui", e com certeza se faz sentir dessa forma.
Se o Paraíso é uma conversa animada com pessoas interessantes, e tão veloz que não se vê o tempo passar, eu vou para o Inferno.
Se o Paraíso é a morada dos homens que produzem como árvores, constróem como se elevassem impérios, mas não vêem motivos para sorrir, eu aconselho desde já: pare de trabalhar e assombre a sua própria casa. Porque os opostos se confundem completamente aqui. Nada é absoluto ou absolutamente, e esses dois extremos não se misturam e equivalem a um ponto mediano; pelo menos, não todo o tempo. Não seria este o Inferno se não se pudesse ser mediano, medíocre, vulgar e banal por um momento, ou mais de um, ou mais de uma dessas qualificações em mais de um sentido ao mesmo tempo.
Se o Paraíso é reservado para os virtuosos, os que abdicam da refeição completa pelas sobras, pelo próximo, os que se completam, eu encontrarei os outros, os deixados de lado, no Inferno.
Eu sou a Ira, a ganância, a luxúria, a gula, o orgulho, a inveja, e um minuto de preguiça para aproveitar tudo isso.
Eu quero uma refeição completa, nada de sobras. Eu estou cercado de pecados, capitais, os mais abissais, e eu não me sinto no Inferno. Então talvez, o que me falte seja simplesmente mandar a mim mesmo pra lá.
Que eu pra sempre mande a mim mesmo pro Inferno.
Pro Inferno comigo mesmo.

domingo, 8 de abril de 2012

A Casa das Mentiras

Essa casa é uma ilusão.
Essas paredes, esse amor, esse carinho, todos esses são falácias.
Este é o circo do sol. Enquanto Ele estiver de pé, a iluminar a nós todos, nós somos uma trupe. Somos bailarinos executando passos em que não acreditamos. Somos palhaços rindo sorrisos que não nos pertencem, até o Sol se pôr.
E quando ele se pôr, o circo fecha as portas, e somos todos animais.
As hienas estão soltas essa noite e todos nós pensamos ser mais um truque de malabarismo.
Se todos os seus familiares mentirem pra você, bem vindo.
Bem vindo ao Circo do Sol.
Porque quando o Sol se põe, começa a realidade. E você não a conhece.
Você e toda a sua arrogância, sua megalomania de achar que toda a vida responde a você.
Você começa e termina todas as suas frases com você.
Você não vê?

As pessoas tendem a me dizer que tudo está bem, tudo são flores, até que você descobre que você conjuga todas as frases com "eu" no começo e no fim.
E você pensa: eu não sou tão egocêntrico assim.
É verdade. Você não se perdeu tanto assim.
Bem que você gostaria.
Mas isso é você gritando que você quer ser reconhecido como qualquer coisa que você o seja.
Sem fingimento. Sem interpretação.
Você é capaz?

Você reza todo dia pra se cercar de coisas reais, mas o mais real que você conhece é você mesmo e seus defeitos.
E você pensa:
"Será que eu estou tão preso ao que eu me lembro de mim mesmo?"
Este é o Circo do Sol. O Sol se põe, e nós somos animais livres.

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Próximo

Hoje, eu acredito saber exatamente o que eu quero.
O que eu espero e gostaria da vida; não que eu acredite que vá alcançar, mas acredito que seja o que eu desejo. Também não posso afirmar ao certo; já acreditei nisso outras vezes e fui enganado.
Também não espero que alguém entenda porque eu desejo isso. Pudera: é praticamente o oposto do que as pessoas querem, de modo geral.
Eu mesmo não sei se acredito no que penso. Inclusive, existem vezes que eu acredito em coisas completamente opostas a isso, em ambos os extremos.

O que eu desejo é ser medíocre.

Eu peço todo dia para não me sentir uma aberração quando estou cercado de outras pessoas. Em especial, gostaria de deixar de sentir isso, enquanto todos acham que sou especial.
E eles estão certos. Eu sou o próximo, eu sou especial. Eu só não me sinto exatamente assim.
Mas também não sou louco de dizer que me sinto como o extremo contrário. Especialmente sentindo desprezo por todos que me rodeiam. E no fim das contas, as duas médias não fazem um valor mediano; elas se cancelam. Eu não sinto (quase) nada.

Eu procuro insistentemente alguém que me faça sentir o "normal".
Não procuro um amor eterno e diferente. Não quero todos os dias descobrir algo novo sobre as pessoas que me cercam e nunca, jamais cair na mesmice. Eu não quero estar com aqueles me façam continuar me sentindo como se eu fosse algo a mais.
Eu quero estar com as pessoas que me fazem sentir que sou mais um, que não sou especial, que não sou diferenciado, que não sou o melhor entre todos. E não aceito simplesmente as pessoas que me façam me sentir mal: seria mais fácil assim, apenas me aproximando de quem não presta. Mas eu não me saboto, e nem isso é o ponto principal do meu desejo. Eu quero sentir que não sou infinitamente maior que todos ao meu redor, mas porque todos são do mesmo nível que eu consegui alcançar, e não porque eu me rebaixei ao nível das pessoas comuns.

Esta é a coisa que eu desejo e nunca serei capaz de obter. Eu sei disso; é impossível conseguir isso que eu desejo. Mas eu não quero mais nada. Eu só preciso sentir isso, e não uma vez. Porque, como amar e perder não é o mesmo o mesmo que nunca amar, eu nunca aceitaria de novo beber a água depois do vinho.

Então, ao invés disso, eu vou contar pra todo mundo que o meu desejo é acreditar pra sempre na minha fé, na raiva sem rosto e sem alvo que eu carrego. Porque se eu não posso ter, eu posso ignorar que ninguém mais terá, e vestir a coroa outra vez.

Ira (Parte II)

“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam.” (Salmo 23, 4)

E mesmo que eu ande pelo Vale das Sombras, eu não temerei homem algum; pois a minha Ira é a minha flecha.
Mesmo que a minha chama não se acenda, mesmo que de tudo eu me esqueça.
Mesmo que só de mim, eu dependa; mesmo que apenas de outros eu me ressinta.
A minha flecha seguirá implacável e absoluta. A minha Ira será infinita.
A minha sede será sempre bem-vinda, e o meu fogo pulsará pra sempre a vida.
Pois mesmo que eu caminhe pela vida eternamente, igualmente infinda será a minha Ira.
Ela falará na sua língua esquecida, palavras que Homem algum se recorda.
Quando ela disser "sede", haverá água. Quando ela disser "abra", abrirão-se todas as portas.
Ela dirá a verdade, e jamais por linhas tortas. A minha Ira é absoluta, e a minha flecha é certeira.
E mesmo que eu navegue por um mar de incertezas, de nenhuma delas eu terei medo; pois a minha Ira é minha bússola.
E ainda mesmo que eu me perca pela constelação de Ursa, nenhuma noite gelada me fará fraquejar, pois minha Ira é minha fé e minha Lua.
Na minha Ira, a minha fé é inabalável. Na minha Ira, eu exerço minha crença, enquanto minha flecha segue sua sentença, inabalável é sua certeza.

sábado, 17 de março de 2012

Ira

Eu aceito a minha Ira.
Eu aperfeiçoei a minha Ira. Eu a transformei em uma arte; quarenta dias e quarenta noites em um deserto em que é noite e dia todo o dia, todos os dias, enquanto a minha esquerda e a minha direita se chocavam. Mas eu consegui. Eu conquistei.
Quando eu digo: "eu conquistei", a minha Ira me estende a mão. Quando eu devolvo o cumprimento, a cortesia, ela quebra o meu pulso, me diz: "TENTE OUTRA VEZ".
Preso em um ambiente desconexo onde tudo é, e nada o é por completo, em que tudo e nada podem ser ao mesmo tempo, eu vivi. Por quarenta dias eu lutei, e preso no meio do duelo entre a minha mente e o meu espírito, a minha Ira floresceu. Éramos só nós dois ali, e nós crescemos juntos, apesar do conflito.
Eu digo: "nós crescemos juntos", e ela grita comigo: "CRESÇA, CRIANÇA".
Eu a abracei, e ainda mais, ela me abraçou. Nós aperfeiçoamos um ao outro; nenhum de nós pode existir sem o outro.
A minha Ira é a minha bússola, meu instrumento. Minha Ira é a minha arte, a minha fé.
Eu penso que sou abençoado, e a minha Ira me traz de volta, gritando comigo, fervendo no suor do Demônio: "TOME UM GOLE DESTA ÁGUA BENTA".
E ela é a minha arma, e meu escudo. Quando eu escuto todos me dizerem o que eu não quero ouvir, e grito "eu não devo nada a vocês, me deixem pra lá", a minha Ira grita comigo: "VOCÊ NÃO DEVE NADA A ELES, DEIXE-OS PRA LÁ".
A minha Ira é minha família. Meu pai, e minha mãe, louca e agressiva como uma Hiena. E como um cão do inferno, ela conhece toda a sua extensão; ela me ensinou o que do Inferno haveria de me tornar um com ela, e um comigo mesmo.
Quando nós temos um objetivo, ela uiva lunática para a Lua ao me dizer: "VÁ PEGAR".
Como um cão do inferno.
Eu agradeço por todos os percalços na minha estrada que me permitiram encontrar e resgatar, amplificar e estudar, e abraçar, aceitar a minha Ira. Sem a frustração e a descrença e o desconhecimento, eu nunca a teria encontrado, eu nunca seria completo. Eu nunca conheceria o sentimento de contrariedade e nunca sentiria a Ira que me alimenta.
Eu agradeço pelas cicatrizes que herdei, e a minha Ira ri, dizendo: "VOCÊ NÃO OS DEVE NADA. FAÇA-OS PENAR".
A minha Ira tem um canto, como o canto de morte de um Cisne. Sua voz é única, facilmente distinguível, e pertencente apenas a ela. Ela entoa seu canto que soa e ressoa e ecoa no silêncio como um arranjo de uma sessão de sopro, pegando fôlego, roubando o ar do próprio ar, até que alcança o seu crescendo máximo. Nesse instante, eu sou a minha Ira.
A minha Ira coloca um sorriso lunático no meu rosto, e nós dois sabemos o caminho.
Nós somos um, nós cantamos e uivamos, e nós somos por inteiro. Por inteiro, sabemos o caminho a trilhar.
Eu penso: "eu serei o maior de todos", e a minha Ira diz: "EU TE GUARDAREI".
E ela guardará; da forma como sempre guardou, da forma como para sempre guardará.
Mesmo que eu caminhe pelo Vale das Sombras, eu não temerei homem algum, pois a minha Ira é a minha flecha.