Posto aqui um texto redigido pelo amigo Pedro Stelling, que me pediu pra colocar esse poema no blog. E aí está! :D
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Com a aurora vem o despertar
Com o sol, a solidão.
Apenas sou,
Não há ninguém.
Procuro, e não há ninguém
Insisto, e ela não vem.
Passa o dia, aumenta o calor
Aumenta a dor,
Cresce o pavor.
Pavor da solidão, do que sente o coração
Pavor de ser,
E medo de dar a mão.
Ao crepúsculo, a luz se vai
A vontade se esvai
E a solidão persiste.
O silêncio que eu grito
Sai rouco, sai triste,
Pois apenas de aflição consiste.
Sentado em minha cadeira,
vago pela escuridão
à procura dela.
Minha paz, meu açoite,
Meu viver, minha noite
Minha droga, meu tudo.
Meu tudo, contudo, está vazio
Está frio
Suas cinzas, pelo rio.
Deito com o dia claro, a noite já é passado
Assim como Maria.
Vou sonhar com Maria.
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Cheers pro Stelling!
terça-feira, 3 de novembro de 2009
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Prematuro, Parto, Fórceps
Eu vejo tudo de cima de um muro. E assim dividem-se territórios, estabelece-se a fronteira, fico no limiar. E quem nunca se protegeu? O instinto de sobrevivência existe em todos nós; e todos nós nos defendemos o tempo inteiro. E quem não tem defesa, ataca; quem não faz nenhum dos dois, entra na ambulância de maca. Eu posso olhar pra baixo e ver uma vida passando debaixo dos meus pés. Eu vejo formigas trabalhando, eu vejo gente sonhando coisas diferentes, vejo falhas, sucessos, orações, blasfêmias, e de cima do meu muro, eu me equilibro como numa corda-bamba. Mas é confortável aqui. O frio desce nos meses mais gelados e a brisa fresca ajuda a aliviar o calor do verão. Mas se eu pudesse, desceria. Seria menos confortável. É complicado andar pra frente num muro como corda-bamba. No meio-termo de dois pólos, duas órbitas revolventes, algo como um refrão de bolero. Posso ver daqui o riacho aonde eu lavo a minha culpa, exumo meus cadáveres, lavo minhas mãos. Desse muro alto, dá pra ver o céu azul, que às vezes fica cinza, às vezes torna púrpura, vermelho, negro, mudando de tom, tanto como eu. Dá pra ver isso tudo e rir com sarcasmo. O que seria da convivência comigo mesmo, não fosse o sarcasmo? Eu posso rir de tudo, como uma Hiena. E daí se eu não sei sentir? Que se tem pra sentir em cima de um muro?
Eu vejo tudo de cima de um muro, e desse muro alto eu vou ver cair do céu lágrimas de despedida.
Eu vejo tudo de cima de um muro, e desse muro alto eu vou ver cair do céu lágrimas de despedida.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Amor Não É Suficiente
O que seria do amor não houvesse a dor do poeta? Seria algo que teríamos esquecido, como o latim? Seria a linguagem universal de um mundo por baixo do mundo - por dentro do mundo - onde os sofredores dialogariam suas condenações eternas, seu arrependimento interminável de ultrapassar os limites da razão para o espaço Além? Seria a salvação, ou arma biológica?
O que seria do mundo se ainda houvesse o amor? Somos nós os responsáveis, mas isso nos faz os assassinos ou os justiceiros? Fizemos o que podíamos pra sobreviver, como sempre fazemos, como tudo o que fazemos. Crucificamos o amor, e os últimos filhos do Homem estão sendo caçados; é a temporada de caça às bruxas. Os amantes carregam cruzes, cercados por uma floresta de concreto, aonde a vida é dura, já o tenha dito um velho sábio, sábio poeta, que cantava o amor.
O que seria de mim se eu soubesse a linguagem do amor? Seria mais completo, ainda mais simples, ou seria mais um ladrilho na avenida? Substituiria o foco das minhas preocupações, perderia o fogo de viver, acenderia a vontade? Mas eu nem sei o que é amar direito. Não saberia definir se me pedissem. E não sei se isso me faz tanta diferença. Talvez um dia eu saiba a diferença; talvez saber a diferença seja a resposta, a diferença em si.
Talvez um dia eu pare de me perguntar esse tipo de coisas.
O que seria do mundo se ainda houvesse o amor? Somos nós os responsáveis, mas isso nos faz os assassinos ou os justiceiros? Fizemos o que podíamos pra sobreviver, como sempre fazemos, como tudo o que fazemos. Crucificamos o amor, e os últimos filhos do Homem estão sendo caçados; é a temporada de caça às bruxas. Os amantes carregam cruzes, cercados por uma floresta de concreto, aonde a vida é dura, já o tenha dito um velho sábio, sábio poeta, que cantava o amor.
O que seria de mim se eu soubesse a linguagem do amor? Seria mais completo, ainda mais simples, ou seria mais um ladrilho na avenida? Substituiria o foco das minhas preocupações, perderia o fogo de viver, acenderia a vontade? Mas eu nem sei o que é amar direito. Não saberia definir se me pedissem. E não sei se isso me faz tanta diferença. Talvez um dia eu saiba a diferença; talvez saber a diferença seja a resposta, a diferença em si.
Talvez um dia eu pare de me perguntar esse tipo de coisas.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Se Eu Dissesse
Eu me pergunto que poder é esse você possui, capaz de roubar a minha calma, tão impassível sentado no centro dessa sala de espelhos e fumaça. Não há teatralidade aqui: esta é uma sala em chamas, enquanto eu me pergunto quantos de mim você vê refletidos nestas paredes, através de quantos de mim seus olhos conseguem enxergar, e quantas respostas cujas perguntas eu sequer conheço você seria capaz de roubar de mim.
Essas perguntas me esfolam em silêncio o tempo inteiro. Eu sou um homem ingênuo que acredita que a ignorância é uma benção e que a curiosidade é capaz de mais mal do que tirar a vida de um gato, mas que se arrisca a lançar as perguntas que, sem respostas, levariam mais do que homens e felinos à loucura.
Essas perguntas me esfolam em silêncio o tempo inteiro. Eu sou um homem ingênuo que acredita que a ignorância é uma benção e que a curiosidade é capaz de mais mal do que tirar a vida de um gato, mas que se arrisca a lançar as perguntas que, sem respostas, levariam mais do que homens e felinos à loucura.
Você já parou pra olhar para outra
pessoa, e observar a forma como ela cria tanta angústia para si? Daquela forma
inconsciente, como quem engasga com as cinzas dos seus familiares carbonizados
pela dúvida. Você se ergue como uma estátua, como que esculpida em carvão e brasas, incrédula a olhar os céus, as nuvens se partindo, se afastando. É noite, e no céu não há
estrelas. Só fuligem.
Poderia parecer uma tragédia, e
certamente seria um terceto final apropriado para um soneto escrito em
sangue, com o sangue da caneta que o corpo gelado do poeta segura em seu rigor
pós-morte. Com a convicção que este não teve em vida. Com tanta força, como se
houvesse agarrado aquele momento entre os dedos e nunca mais fosse soltar. Como
se fosse o momento mais feliz de toda a sua vida.
Meu coração está partido por
saber que o véu preto que cobre seu rosto é fino o suficiente para que você me
perceba sozinho, olhando para o cinza, a mistura de todas as cores. Me mantendo
tão perto, mesmo sabendo que me envenena lentamente te aspirar, te tragar, te
saborear, como remorso juvenil, como a covardia do forte. É um homem morto o
homem que não sabe compartilhar seus vícios; o que seria de um homem sem
vícios, então?
Eu encontrei conforto nessa
solidão cativa. Eu respirei tanta fuligem que isso já não me agride mais: obrigado
por isso. Por isso, eu te tenho tanto carinho. Mesmo ciente de que você jamais
faria o mesmo por mim.
O que me restou de você foi uma
lembrança fatigada de algo que eu nunca terei; errar uma vez é humano, tantas
vezes quanto eu errei é um vício. Você colocou uma cortina entre nós: fiquemos
os dois olhando para Deus com nossos olhos ferinos, com as unhas arranhando o
pavimento até que o sangue verta e não consigamos segurar mais a caneta, então.
Eu desejo que você olhe profundamente para mim e leia o que
está escrito nos meus olhos. Leia meus lábios enquanto eu sussurro que posso te
dar liberdade do seu arrependimento, que eu posso te oferecer paz de espírito.
Eu posso te desejar a Morte. Leia meus lábios, leia meus
olhos.
Aqui você se apresenta, dedilhando sua culpa, com um
silêncio que somente justifica esse ato de covardia, a dança das cinzas no
vento, bailarinas de fumaça.terça-feira, 25 de agosto de 2009
Náufrago
Contar uma mentira é fácil. Assim como é fácil para um mentiroso reconhecer outro, e por isso, a mentira é um terreno raso aonde se pisar. Ela atinge o fundo, invariavelmente, pela existência de uma verdade por trás dela. A mentira se aprofunda quando se mescla com verdades: uma mentira baseada na verdade é mais duradoura do que uma alucinação completa. Mas ainda assim, existe a verdade. Existe o fato, o real. Os melhores mentirosos são aqueles que não mentem; eles se convencem da mentira a ponto de se tornarem ela. Eles a vivem, acreditam piamente nela. Elimina-se a verdade, que é substituída pela mentira a se contar, e se assiste em seguida ao naufrágio da verdade pra sempre omitida. A arte, de fato, de mentir, consiste em viver a mentira.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Carta de Despedida
Se eu te dissesse um dia que eu nunca iria te machucar, e eu me certifiquei em não dizer, essa seria uma promessa que eu não seria capaz de cumprir. Se eu te disse qualquer dia que aquilo poderia ser amor eterno, eu vou limpar esse sorriso frouxo do seu rosto. Um rosto bonito e frágil, alegre e largo, como uma mentira. Se eu te fiz chorar mil vezes, você ainda me aceitaria de volta para mais duas mil, e eu ainda sentiria saudades - e eu jurei por Deus que nunca sentiria. Se eu te disse que eu estou bem, e que alcancei meus objetivos - se lembra?, - e que nenhum dos meus amigos sequer perguntou por você, você desmintiria? Mas é esse o preço de ser impessoal. Essa carta é impessoal, como a que você me remeteu há tempos atrás; as palavras parecem cair por si sobre a folha. E como ela, isso é uma carta de despedida; eu menti quando disse que não era você, e sim eu mesmo, e oh, que atrevimento o meu. Isso, sim, é uma carta de despedida, das que te ateam fogo pra ver em que cores você consegue se desfazer. Daquele meu jeito que te é familiar. Se eu te deixei esperando por dois longos anos, e você se sentiu abandonada e teimosa, eu rezei pra Deus que você nao me odiasse no fim. Se eu disse que voltaria pra casa em breve, um quarto vazio e um coração ainda mais solitário é o que você encontraria, com uma carta de forma exata entre as quatro paredes brancas. Mas você deixou as palavras caírem nas páginas, eu tentei gritar e não tive fôlego. Te pergunto se você está acordada agora: se você o beija e pensa em mim durante o ato. Espero que não. Não o satisfaria se ele suspeitasse que você beija a boca dele pensando na minha falta de caráter; essa que você compartilha atrás dos seus olhos enegrecidos. Eu poderia - sim, por que não? - fazer tudo certo. Quem sabe, se as estrelas se alinhassem, se o céu virasse veludo, se você colaborasse, se não fosse egoísta. Mas estou satisfeito, por agora, em desejar um lugar diferente, um tempo diferente, um ataque cardíaco, e um convite pra sua missa de sétimo dia. Eu sei que tive minha parcela de culpa. Eu sei que cometi uma calamidade de erros; mas você foi e será o mais gritante. E será pra sempre - o "pra sempre" que você sonha ter. Então, adeus, pra sempre.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Escada Rolante
E aí povo.
Mais uma história curta, porém surpreendente.
Então: as férias que tirei do mundo estão quase no fim (apesar da minha amiga gripe suína estar ajudando a esticar-las), e estava lá eu passeando com minha namorada no Itaipu Multicenter.
Um Shopping que tinha potencial para ser um grande algo, mas que acaba sendo um grande nada. Prometeu um Outback, e trará um Habib's. Trocou um cinema por um Ponto Frio. E cuja a única grande novidade nos últimos 5 anos foi a colocação de uma escada rolante de um sentido só, ligando duas praças de alimentação absolutamente sub-utilizadas.
Pois bem, lá estava eu, passeando no Shopping deserto, quando subo uma dessas escadas rolantes, subindo atrás da minha namorada.
Como todo bom namorado, resolvi dar um beijo em seu cangote. Porém, ela estava um degrau acima da escada que subia, portanto, resolvi subir um degrau, me posicionando no mesmo degrau que ela.
Má idéia. A escada rolante chegou em seu fim enquanto eu subia, retificando os degraus. Perdi o equilíbrio e tropecei. Tentei agarrar o corrimão, mas ele andou (é uma escada rolante, ou seja, o corrimão anda!).
Nunca tinha caído antes numa escada, nem numa normal. Certa vez, sem querer, empurrei um amigo que rolou um lance inteiro (mas sem se machucar). Mas comigo, nunca tinha ocorrido, no máximo cair de bunda uns dois degraus.
Dessa vez não teve jeito. Rolei a escada rolante.
Comecei a cair, doeu, porque tinha os dentes de metal no final de cada degrau, que arranhavam bastante. Imaginei que o shopping todo estaria me olhando, e que eventualmente eu derrubaria alguém, levando essa pessoa até o final da escada comigo, ou tendo essa pessoa para parar a minha queda.
Azar: O shopping estava bem vazio, não tinha ninguém atrás de mim.
Depois de uns 15 segundos rolando, percebi que tinha alguma coisa errada: Aquilo estava durando muito mais tempo do que devia durar.
Foi quando, para meu horror, percebi o que ocorria: enquanto eu rolava escada abaixo, ela ficava subindo, causando um ciclo que supûs que não fosse acabar nunca!
Pensei: Ora, logo alguém virá e vai desligar a escada. Mas me lembrei que não há um só segurança no shopping.
Bem, não precisei me preocupar muito. No final das contas, a aceleração da gravidade acabou vencendo a velocidade da escada de subida. Uns 10 segundos depois e cheguei no começo da escada, onde ela fica reta. Ela começou a subir. Bem doído, e com um corte no braço, me levantei no degrau.
Deu tempo de ver uma pequena platéia no pé da escada, de umas 7 pessoas, que deviam ter observado o espetáculo.
Abaixei a cabeça e subi a escada.
No topo, minha namorada correu pra ver se eu estava bem. Quando constatou que não tinha nenhum machucado sério, fingiu que não me conhecia. Descemos pelo elevador, pagamos o estacionamento e viemos para minha casa, tratar do meu braço...
Mais uma história curta, porém surpreendente.
Então: as férias que tirei do mundo estão quase no fim (apesar da minha amiga gripe suína estar ajudando a esticar-las), e estava lá eu passeando com minha namorada no Itaipu Multicenter.
Um Shopping que tinha potencial para ser um grande algo, mas que acaba sendo um grande nada. Prometeu um Outback, e trará um Habib's. Trocou um cinema por um Ponto Frio. E cuja a única grande novidade nos últimos 5 anos foi a colocação de uma escada rolante de um sentido só, ligando duas praças de alimentação absolutamente sub-utilizadas.
Pois bem, lá estava eu, passeando no Shopping deserto, quando subo uma dessas escadas rolantes, subindo atrás da minha namorada.
Como todo bom namorado, resolvi dar um beijo em seu cangote. Porém, ela estava um degrau acima da escada que subia, portanto, resolvi subir um degrau, me posicionando no mesmo degrau que ela.
Má idéia. A escada rolante chegou em seu fim enquanto eu subia, retificando os degraus. Perdi o equilíbrio e tropecei. Tentei agarrar o corrimão, mas ele andou (é uma escada rolante, ou seja, o corrimão anda!).
Nunca tinha caído antes numa escada, nem numa normal. Certa vez, sem querer, empurrei um amigo que rolou um lance inteiro (mas sem se machucar). Mas comigo, nunca tinha ocorrido, no máximo cair de bunda uns dois degraus.
Dessa vez não teve jeito. Rolei a escada rolante.
Comecei a cair, doeu, porque tinha os dentes de metal no final de cada degrau, que arranhavam bastante. Imaginei que o shopping todo estaria me olhando, e que eventualmente eu derrubaria alguém, levando essa pessoa até o final da escada comigo, ou tendo essa pessoa para parar a minha queda.
Azar: O shopping estava bem vazio, não tinha ninguém atrás de mim.
Depois de uns 15 segundos rolando, percebi que tinha alguma coisa errada: Aquilo estava durando muito mais tempo do que devia durar.
Foi quando, para meu horror, percebi o que ocorria: enquanto eu rolava escada abaixo, ela ficava subindo, causando um ciclo que supûs que não fosse acabar nunca!
Pensei: Ora, logo alguém virá e vai desligar a escada. Mas me lembrei que não há um só segurança no shopping.
Bem, não precisei me preocupar muito. No final das contas, a aceleração da gravidade acabou vencendo a velocidade da escada de subida. Uns 10 segundos depois e cheguei no começo da escada, onde ela fica reta. Ela começou a subir. Bem doído, e com um corte no braço, me levantei no degrau.
Deu tempo de ver uma pequena platéia no pé da escada, de umas 7 pessoas, que deviam ter observado o espetáculo.
Abaixei a cabeça e subi a escada.
No topo, minha namorada correu pra ver se eu estava bem. Quando constatou que não tinha nenhum machucado sério, fingiu que não me conhecia. Descemos pelo elevador, pagamos o estacionamento e viemos para minha casa, tratar do meu braço...
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