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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

2009 British Style

Cenário: Inglaterra, casa de Thomas.
Tempo: 2 de Janeiro de 2009


Quando Thomas acordou em 2009, já era o dia 2. Não que ele soubesse disso. Nem que ele conseguisse saber de qualquer coisa. Antes de vomitar na cama, só conseguiu absorver que estava apenas de cuecas. Quando se recompôs, percebeu que o prejuízo do vômito não tinha sido muito grande, pois seu quarto, seus móveis e seu chão estavam vomitados. Rastejou de seu quarto até o banheiro e vomitou novamente, mas dessa vez com dignidade, na privada.
Conseguiu ficar de pé e foi até a sua sala. Reparou que alguém tinha vomitado no seu avô empalhado. Que por sinal, ainda estava com os enfeites de Natal, visto que por falta de dinheiro, e por estilo, Thomas havia decorado o seu avô como se fosse a árvore natalina. Fato grave: Alguém tinha deixado as lâmpadas acesas esse tempo todo. E "esse tempo todo" era relativo, visto que Thomas não se lembrava de ter virado o ano. Sua última lembrança era do dia 31. Mas aquilo era perigoso, podia causar um incêndio e queimar a cara decoração que estava sobre o seu avô. Apagou as luzes e buscou um telefone.
- James? O que aconteceu?
- Ah, olá Thomas. Vejo que você acordou.
- James, porquê estou de cuecas?
- Como? Já se esqueceu do torneio de Krav Magá?
- Torneio?
- Sim, claro! Quem ganhasse ficaria com as suas roupas, já esqueceu?
- Mas James, eu não luto Krav Magá!
- Bem, não é de admirar que eu tenha ganho assim tão facilmente.
- Oh, raios. Detesto ficar de cuecas em público.
- Ora Thomas, não seja modesto. Você se divertiu com menos que isso no Pub.
- Deveras, James?
- Deveras, caro amigo! Esqueceu-se do momento em que subiu pelado na mesa e puxou o hino do Manchester United com todo o Pub?
- Não me lembro com clareza. Mas acredito que nunca mais voltarei lá.
- Ora, não seja modesto! Todos se divertiram! E digo mais: Se você não estivesse se divertindo tanto, eu até teria subido na mesa e te tirado de lá!
- Oh, vergonha minha.
- Não tão embaraçoso como a virada do ano, quando você se atracou nu com um cachorro. Devo dizer, aquilo sim foi realmente embaraçoso.

Thomas parou, pensou e voltou ao seu quarto. Viu um vira-lata deitado em sua cama, lambendo seu vômito. Voltou para a sala, e para o telefone.

- Realmente embaraçoso, James?
- Realmente embaraçoso. Já deve estar na internet à essa hora.

Thomas suspirou.

- Oh, bem. Todos praticam zoofilia mais dia, menos dia. O que se há de fazer?
- Sim, Thomas, aproveitemos 2009! Ah, e a propósito, boas notícias: instalei uma chaleira elétrica no seu avô. Não o desligue, senão você irá estragar o mais maravilhoso chá já feito!

- Oh, bloody hell!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O Pássaro Laranja da Felicidade

Cenário: Uma rua da Inglaterra
Personagens: Dois homens ingleses usando pantufas, suéteres, com jeito de lorde inglês e um passarinho laranja
*
*
Em um certo dia ensolarado em nossa alegre cidade Inglesa, eu estava parado em uma esquina, apoiado em um poste, quando vi meu amigo Thomas descendo a rua em minha direção, vestindo suas pantufas, usando seu suéter e fumando seu famoso cachimbo. Em sua mão esquerda levava...bem, na verdade, Thomas não tinha mão esquerda. Quando criança, um jabuti comera-a em um bizarro acidente e desde então ele a substituíra por um gancho. Já em sua mão direita, apertava um pequeno passarinho laranja que berrava.

- Olá Thomas. - eu disse
- Olá James - retrucou ele com seu habitual sorriso cordial.

Como eu não tinha nada para fazer naquela esquina e estava interessado pelo passarinho, decidi seguí-lo e iniciar uma conversação.

- Diga-me, Thomas, por que você não leva o passarinho em uma gaiola?
- Bem, a verdade é que eu não gosto de ver bichos enjaulados. Faz mal para minha auto-estima e perturba meu intestino.
- Pelo menos o passarinho não ficaria berrando pelo modo como você o aperta com força.
- Oh James, como você é tolo! Ele não está gritando, está cantando!
- Não, Thomas, ele está berrando. A prova disso é que ele está bicando desesperadamente os seus dedos. E digo mais, eles estão sangrando.
- Não, não. Ele não está bicando meus dedos e arrancando a pele deles em desespero. Ele deve estar confundindo meus dedos com minhocas!
- Oh sim, faz perfeito sentido, Thomas! E por falar nisso, porque você carrega um tão belo pássaro?
- Bem James, eu decidi que este passarinho será uma excelente companhia para o meu avô.
- Mas o seu avô não morreu na semana passada?
- Sim, é verdade, mas é a intenção o que conta, não?
- Certamente Thomas. E é uma intenção louvável,
- Obrigado, James.
- Agora, me responda mais uma questão, Thomas, como você conseguiu capturar um espécime tão interessante?
- Oh, este passarinho estava em seu ninho chocando seus ovos e cantando sua belíssima canção, que chamou muitíssimo a minha atenção. Roubei o seu ninho e ele veio voando me atacar para defender a sua cria, e foi neste momento que o agarrei.
- Genial, Thomas. E onde você colocou os ovos?
- Bem, levei em conta que o pássaro passaria os restos de seus dias em minha casa, e que os filhotes morreriam de fome. Então, em toda a minha caridade, procurei um mendigo na cidade e entreguei-lhe os ovos, para que ele se banqueteasse
- Excelente plano, Thomas.


Continuamos andando até chegarmos em sua casa. Thomas pediu para que eu abrisse a maçaneta (ele só tem uma mão, lembram-se?) e entramos na casa. Na sala, fiquei surpreso. Ali estava o avô de Thomas, alto, saudável, sorrindo, brilhante.
- Então você empalhou seu avô, Thomas - perguntei
- Oh, não fui eu! Foi o taxidermista!
- Foi um excelente trabalho, de qualquer modo!
- Obrigado James! Suas considerações e bajulações muito me aprazem.
- Pois bem, soltemos o passarinho?
- Sim, claro! Vá, pequenino, vá e voe, faça meu avô feliz!

E o pássaro saiu da mão de Thomas e voou, direto para o avô, pousando em seu ombro e cantando umas breves notas de uma canção. Por um instante, o sol que entrava pela janela aberta da sala pareceu ficar mais brilhante.
E então, o pássaro novamente levantou vôo, cagou na cabeça do avô de Thomas e saiu voando pela janela juntando-se a uma revoada de pássaros laranjas.

Olhei para Thomas. Ele deu um longo suspiro, e disse por final:
- Pegue minha Winchester, James. Hoje valerá mais um pássaro morto do que dois voando.