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sábado, 16 de fevereiro de 2008

Donnie Darko

Todo ser vivo morre sozinho. Assim é o elefante, que ao pressentir a chegada do Carrasco, se retira para as montanhas, solitário, para agonizar seus últimos instantes, só; assim é o tigre sorrateiro, como é o dragão escondido. Talvez, o nêmesis da vida não seja de fato a morte: não, talvez esta seja uma consequência, e não o marco. Talvez o oposto da vida seja a solidão.
E assim são os seres humanos. Enganamo-nos quando nos convencemos de que qualquer posse ou aspecto de nossas vidas nos acompanhará na morte. Não, senhores: assim como na vida, na morte as amizades se quebram, o dinheiro vira pó, a fama é irrisória e todos os laços de amor estabelecidos - sejão lá qual forem o tipo e a intensidade dos mesmos - são desfeitos. De nossa vida material, nada nos acompanhará até a clareira no fim do caminho. Nossas conquistas nos confortam em vida, mas na morte, são todas tornadas novamente no pó de onde um dia vieram.
Naturalmente, surge então a pergunta: o que é a vida, senão tempo desperdiçado? Pra que lutar pelas batalhas que eventualmente perderemos para o tempo?
Porque não nos foi dada qualquer opção. Simples assim.
Dizer que não perderemos a guerra mesmo que vençamos todas as batalhas seria mentir. Mas a única alternativa é a desistência: não entrar em batalha alguma, e contar os anos até o dia de nosso juízo, não guardando nada senão duas moedas de prata para o barqueiro. Os dias seriam castigos intermináveis, até que o Caronte viesse nos libertar da agonia, após anos de prisão em nossa própria vida.
A opção que temos é fazer da vida um fim em si mesmo. Travar as batalhas pelo benefício de lutá-las, buscar a perfeição pelo prazer da busca, e alienar a preocupação com o que o futuro nos reserva. Um dia, veremos nosso passado correr por diante de nossos olhos, enquanto tudo que conquistamos ruirá ao som de um coral de anjos que saudarão nossa saída do plano mortal. Nesse dia, a solidão será nossa única companheira, sem sombra de dúvidas; mas fazendo da passagem pelo mundo uma montanha-russa, não teremos medo da morte. Pois contentes ou não, todos morreremos, e morreremos sozinhos no mundo, mas ainda resta a opção sobre o contentamento com o qual o faremos.