Tem que ter estômago, hein galera!
Inaugurando a Sendas:
Ano 2000. Ou 99, 98. O Itaipu Multicenter tinha acabado de inaugurar. O Supermercado Sendas, consequentemente, também.
Naquela época eu era uma criança mongol (hoje sou um jovem adulto imbecil).
Entrei naquele Supermercado lindo, gigante, maravilhoso, com o chão lustrado brilhando de novo.
Entrei correndo, escorreguei, caí de costas, em cheio no chão, derrubando uma prateleira de produtos de limpeza no trajeto ar/chão.
Uma velhinha que passava me perguntou: "É uma pegadinha?".
Não lembro o que disse, só lembro que não mandei a velha ir se foder.
O trauma da casca da pipoca:
Ano 2000. Ou 99. Com certeza não era 98.
Fui no cinema Icaraí com uns amiguinhos (incluino o Oráculo) ver Pokémon - O Filme.
No meio da sessão engasguei com uma pipoca.
Mesmo meia-hora depois, apesar de ter bebido água, etc, ainda conseguia sentir a casquinha da pipoca na minha garganta. Senti ela lá durante 6 meses.
Fiquei 6 meses sem conseguir comer nada sólido, só bebendo líquidos (sopas e caldo de feijão), com medo de engasgar.
Quando me perguntavam, eu falava que estava de dieta.
Eu era muito gordo com 10 anos.
Mas a sequela psicológica me fez emagrecer 12 quilos.
Melhor do que Cogumelo do Sol.
Nunca mais aguentei tomar sopa na minha vida.
Bola 1 (ou , cortando o dedo jogando sinuca):
Fui passar um feriado de 2003 num sítio para funcionários públicos com meus pais e um amigo.
Fomos nós dois jogar Sinuca na área de jogos.
Eu sempre fui ótimo na sinuca. Só sou ruim de acertar as bolas. E firmar o taco. E encaçapar.
Bem, fui tentar firmar o taco, fazendo-o correr na direção do meu indicador esquerdo para acertar a bola branca, enquanto eu segurava o taco com a mão direita.
Ao dar a estocada na bola, esfolei meu dedo com a ponta do taco.
Arranquei boa parte da pele do meu indicador esquerdo e caguei o tapetinho verde todo de sangue.
Saí dali logo para dar o benefício da dúvida aos funcionários do hotel quanto à mancha na mesa.
Grampeando o Dedo:
Essa é clássica. Quem nunca grampeou o dedo?
Bem, eu não conheço ninguém além de mim.
Botei a folha de papel debaixo do grampo, abaixei pra grampear, dei uma porrada no grampeador... mas esqueci de tirar meu dedo de baixo.
O grampo cravou no meu dedo.
Foi uma dor excruciante ter um pedaço de metal dentro do meu dedo, ainda que pouco mais de 1 cm. Arrancar o grampo foi pior ainda. Sangrou horrores depois. E ainda acertei um nervo que inchou meu indicador.
Não grampeiem o dedo, falou?
Fica a dica.
OBS: Esse ano agora, em 2009, no meu estágio da defensoria, contando essa história para uma colega de trabalho, resolvi demonstrar pra ela o que tinha ocorrido. Enquanto ela segurava o grampeador, fui mostrar a posição do grampo...mas sem querer, fiz a mola do grampeador correr, cortando a mão da garota. Fiquei com um certo remorso por ser tão atrapalhado.
(...)
Ainda bem que não foi comigo.
Batendo no poste (andando):
Essa foi no meu condomínio, e a única que deixou mesmo uma cicatriz. Minha namorada estava vindo de ônibus para o meu condomínio, mas estava faltando dinheiro da passagem dela, então eu saí de casa e fui andando pro ponto para encontrá-la e completar os 5 centavos que faltavam que o cobrador ficava enchendo saco.
No caminho, tropecei num paralelepípedo solto, e bati com a mão em um poste.
Um poste, parado, desses de luz.
Cortou a minha mão de uma forma que nunca tinha cortado antes.
O sangue parecia água conforme ia saindo da minha mão.
Segurei a minha mão com a outra, mas ainda tinha que levar os 5 centavos no ponto de ônibus. Só que o dinheiro estava na minha calça, e eu não podia meter a mão não cortada, senão ia cagar minha calça toda!
Saí do condomínio e andei até o ponto.
Pedi para uma mulher: "Ei, por favor, coloque a mão no meu bolso e pegue 5 centavos?"
A mulher recuou horrorizada, vendo o sangue pingar da minha mão que pressionava a outra, jogou 5 centavos que ela tina no chão e saiu correndo.
Foi tenso pegar os 5 centavos do chão.
Paguei o ônibus e minha namorada queria me levar pra um hospital pra dar ponto.
Não dei ponto, por preguiça e por medo.
Em um mês cicatrizou, deixando uma cicatriz de recordação, e como lição para nunca bater em um poste denovo no futuro, andando ou de carro.
Bola Murcha:
A Faculdade de Direito da UFF possui uma quadra poliesportiva. Porque temos, eu não sei.
Só sei que o pessoal joga bola frequentemente.
Eu sempre fui um merda no futebol, uma vergonha.
Sempre era o último a ser escolhido quando tiravam time na aula de educação física.
Na verdade, eu não era escolhido. Sobravam eu e outro cara, escolhiam o outro cara e eu ficava com o outro time.
No entanto, um dia desses resolvi jogar uma pelada com o pessoal. Só tinham uns 7 caras, 8 comigo. Que mal poderia haver?
Fui lá, jogando, mal.
Todos fizeram 3, 4 gols pelo menos.
Eu estava lá há quase 1 hora, morto de cansaço, respirando como um porco (totalmente fora de forma).
Até que a bola veio parar no meu pé e eu estava no ataque.
Corri para a área, driblei um zagueiro (!), entrei na pequena área, driblei o goleiro (!!!), fiquei na cara do gol... e errei.
Mas não "errei" apenas.
Foi épico. Quando fui chutar a bola com o pé esquerdo, a bola andou. Chutei o ar vazio, perdi o equilíbrio e cai (novamente) de costas, sem camisa e suado, estatelado no chão.
Levantei com as costas sujas da poeira do chão, com todos rindo de mim.
Se tivessem filmado a cena, não tenho dúvidas de que eu ganharia o troféu de "Bola Murcha" do Fantástico.
Essa eu podia ter previsto...
A Escada Rolante:
Essa não precisa nem falar, né?
Armando a barraca:
Idiotice clássica.
Fui na praia de Camboinhas com a namorada e uns amigos.
Chegando lá, peguei o pau da barraca, e como macho alfa do grupo, resolvi armar a barraca.
Enfiei o pau na areia (*bateria*). Mas na primeira vez não foi fundo o bastante.
Então, me preparei para a segunda estocada.
Concentrei toda minha força em minhas pernas para fornecer um apoio para me dar força, coloque força nos meus braços e enfiei o pau da barraca na areia com tudo.....
....incluindo a minha cara.
Eu enfiei o pau com tanta força que me abaixei. Meu rosto foi de encontro com um ferro na haste, onde fixaria a parte superior da barraca.
Cortei o queixo no meio da praia lotada.
Não foi muito fundo, pelo menos. Fui na água limpar o sangue escorrendo.
Parar estancar o sangue e disfarçar o machucado. Fiquei com a mão no queixo e com uma sombrancelha erguida, fazendo pose de intelectual o resto da tarde.
Meu amor incondicional pela humanidade:
Estava eu no Sam's Club fazendo compras, quando vejo aqueles rolos de papel alumínio (aqueles de cozinha).
Vejo que tem um rolo padrão de 7,5m vendendo, bem como um rolo MUITO maior, de 100 m.
Perplexo, pego aquele rolo e sinto o peso.
Penso: "Meu Deus, isso aqui é quase uma pedra! Pode matar alguém se acertar na cabeça!".
Burro, resolvi testar a minha teoria...em mim mesmo.
Dei uma pancada (não muito forte, pra falar a verdade), meio que de brincadeira no meu cocoruto (parte de trás da cabeça, para quem não sabe).
Só escutei um barulho oco, e desarmei no chão.
Dessa vez cai estatelado de frente, para variar. Incrivelmente, apesar de não ter reação nem pra colocar a mão na minha frente, não me machuquei.
Acho que nem cheguei a desmaiar, porque logo depois, me levantei. Ninguém me viu caindo, e se viu, ninguém parou pra me ajudar.
Levantei, coloquei o rolo no lugar, e saí andando, meio tonto.
As coisas que eu não faço por amor à humanidade....
sábado, 7 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Maria
Posto aqui um texto redigido pelo amigo Pedro Stelling, que me pediu pra colocar esse poema no blog. E aí está! :D
---
Com a aurora vem o despertar
Com o sol, a solidão.
Apenas sou,
Não há ninguém.
Procuro, e não há ninguém
Insisto, e ela não vem.
Passa o dia, aumenta o calor
Aumenta a dor,
Cresce o pavor.
Pavor da solidão, do que sente o coração
Pavor de ser,
E medo de dar a mão.
Ao crepúsculo, a luz se vai
A vontade se esvai
E a solidão persiste.
O silêncio que eu grito
Sai rouco, sai triste,
Pois apenas de aflição consiste.
Sentado em minha cadeira,
vago pela escuridão
à procura dela.
Minha paz, meu açoite,
Meu viver, minha noite
Minha droga, meu tudo.
Meu tudo, contudo, está vazio
Está frio
Suas cinzas, pelo rio.
Deito com o dia claro, a noite já é passado
Assim como Maria.
Vou sonhar com Maria.
---
Cheers pro Stelling!
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Com a aurora vem o despertar
Com o sol, a solidão.
Apenas sou,
Não há ninguém.
Procuro, e não há ninguém
Insisto, e ela não vem.
Passa o dia, aumenta o calor
Aumenta a dor,
Cresce o pavor.
Pavor da solidão, do que sente o coração
Pavor de ser,
E medo de dar a mão.
Ao crepúsculo, a luz se vai
A vontade se esvai
E a solidão persiste.
O silêncio que eu grito
Sai rouco, sai triste,
Pois apenas de aflição consiste.
Sentado em minha cadeira,
vago pela escuridão
à procura dela.
Minha paz, meu açoite,
Meu viver, minha noite
Minha droga, meu tudo.
Meu tudo, contudo, está vazio
Está frio
Suas cinzas, pelo rio.
Deito com o dia claro, a noite já é passado
Assim como Maria.
Vou sonhar com Maria.
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Cheers pro Stelling!
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Prematuro, Parto, Fórceps
Eu vejo tudo de cima de um muro. E assim dividem-se territórios, estabelece-se a fronteira, fico no limiar. E quem nunca se protegeu? O instinto de sobrevivência existe em todos nós; e todos nós nos defendemos o tempo inteiro. E quem não tem defesa, ataca; quem não faz nenhum dos dois, entra na ambulância de maca. Eu posso olhar pra baixo e ver uma vida passando debaixo dos meus pés. Eu vejo formigas trabalhando, eu vejo gente sonhando coisas diferentes, vejo falhas, sucessos, orações, blasfêmias, e de cima do meu muro, eu me equilibro como numa corda-bamba. Mas é confortável aqui. O frio desce nos meses mais gelados e a brisa fresca ajuda a aliviar o calor do verão. Mas se eu pudesse, desceria. Seria menos confortável. É complicado andar pra frente num muro como corda-bamba. No meio-termo de dois pólos, duas órbitas revolventes, algo como um refrão de bolero. Posso ver daqui o riacho aonde eu lavo a minha culpa, exumo meus cadáveres, lavo minhas mãos. Desse muro alto, dá pra ver o céu azul, que às vezes fica cinza, às vezes torna púrpura, vermelho, negro, mudando de tom, tanto como eu. Dá pra ver isso tudo e rir com sarcasmo. O que seria da convivência comigo mesmo, não fosse o sarcasmo? Eu posso rir de tudo, como uma Hiena. E daí se eu não sei sentir? Que se tem pra sentir em cima de um muro?
Eu vejo tudo de cima de um muro, e desse muro alto eu vou ver cair do céu lágrimas de despedida.
Eu vejo tudo de cima de um muro, e desse muro alto eu vou ver cair do céu lágrimas de despedida.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Amor Não É Suficiente
O que seria do amor não houvesse a dor do poeta? Seria algo que teríamos esquecido, como o latim? Seria a linguagem universal de um mundo por baixo do mundo - por dentro do mundo - onde os sofredores dialogariam suas condenações eternas, seu arrependimento interminável de ultrapassar os limites da razão para o espaço Além? Seria a salvação, ou arma biológica?
O que seria do mundo se ainda houvesse o amor? Somos nós os responsáveis, mas isso nos faz os assassinos ou os justiceiros? Fizemos o que podíamos pra sobreviver, como sempre fazemos, como tudo o que fazemos. Crucificamos o amor, e os últimos filhos do Homem estão sendo caçados; é a temporada de caça às bruxas. Os amantes carregam cruzes, cercados por uma floresta de concreto, aonde a vida é dura, já o tenha dito um velho sábio, sábio poeta, que cantava o amor.
O que seria de mim se eu soubesse a linguagem do amor? Seria mais completo, ainda mais simples, ou seria mais um ladrilho na avenida? Substituiria o foco das minhas preocupações, perderia o fogo de viver, acenderia a vontade? Mas eu nem sei o que é amar direito. Não saberia definir se me pedissem. E não sei se isso me faz tanta diferença. Talvez um dia eu saiba a diferença; talvez saber a diferença seja a resposta, a diferença em si.
Talvez um dia eu pare de me perguntar esse tipo de coisas.
O que seria do mundo se ainda houvesse o amor? Somos nós os responsáveis, mas isso nos faz os assassinos ou os justiceiros? Fizemos o que podíamos pra sobreviver, como sempre fazemos, como tudo o que fazemos. Crucificamos o amor, e os últimos filhos do Homem estão sendo caçados; é a temporada de caça às bruxas. Os amantes carregam cruzes, cercados por uma floresta de concreto, aonde a vida é dura, já o tenha dito um velho sábio, sábio poeta, que cantava o amor.
O que seria de mim se eu soubesse a linguagem do amor? Seria mais completo, ainda mais simples, ou seria mais um ladrilho na avenida? Substituiria o foco das minhas preocupações, perderia o fogo de viver, acenderia a vontade? Mas eu nem sei o que é amar direito. Não saberia definir se me pedissem. E não sei se isso me faz tanta diferença. Talvez um dia eu saiba a diferença; talvez saber a diferença seja a resposta, a diferença em si.
Talvez um dia eu pare de me perguntar esse tipo de coisas.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Se Eu Disesse
Se pouca coisa me tira do sério, porque eu saio do sério sem motivo? Se pouca coisa me surpreende, porque eu me surpreendo sempre com as mesmas coisas? Por que me surpreendo comigo mesmo?
Se eu odeio tanto perguntar "por que?", como posso me fazer essa pergunta o tempo inteiro? Sinal de fraqueza, de ingenuidade. Curiosidade que um dia matou o gato, e a sua linhagem inteira.
Você já parou pra olhar para aquela pessoa, e reparar na forma como ela cria tanto sofrimento? Daquela forma inconsciente, como o gato que engasgou com as cinzas dos seus familiares carbonizados pela dúvida. A sua estátua, como que esculpida em carvão, a olhar os céus, incrédula, as nuvens se partindo, se afastando. É noite, e no céu não há estrelas. Só fuligem.
Poderia parecer uma tragédia, e certamente o seria. Seria um bom final escrito em sangue, com o sangue da caneta que o corpo gelado do poeta segura em seu rigor pós-morte. Com a convicção que este não teve em vida. Com tanta força, como se houvesse agarrado aquele momento entre os dedos e nunca mais fosse soltar. Como se fosse o momento mais feliz de toda a sua vida.
Meu coração está partido por saber que o véu preto que cobre seu rosto é fino o suficiente para que você me perceba sozinho, olhando para o cinza. A mistura de todas as cores. Me mantendo tão perto, mesmo sabendo que me mata te aspirar, te tragar, te saborear, como remorso juvenil, como a covardia do forte. É um homem morto o homem que não sabe compartilhar seus vícios; o que é um homem sem vícios, então?
Mas essa solidão já se tornou aturável. É motivo inclusive de conforto. Dizem que é efeito colateral de respirar tanta fuligem. Obrigado por isso. Por isso, eu te tenho tanto carinho. Mas me diga que você faria o mesmo por mim.
Você só está aqui por uma lembrança fatigada de algo que eu nunca terei; errar uma vez é humano, duas vezes é vício. Você colocou uma cortina entre nós: fiquemos os dois olhando para Deus com nossos olhos ferinos, com as unhas arranhando o pavimento até que o sangue verta e não consigamos segurar mais a caneta, então.
Eu posso te dar liberdade do seu arrependimento.
Eu posso te dar paz de espírito, com um sorriso falso.
Eu posso te desejar a Morte. Leia meus lábios, leia meus olhos.
Aqui você se apresenta, dedilhando sua culpa, com um silêncio que justifica esse ato de covardia, a orquestra das cinzas no vento, bailarinas de fumaça.
Se eu odeio tanto perguntar "por que?", como posso me fazer essa pergunta o tempo inteiro? Sinal de fraqueza, de ingenuidade. Curiosidade que um dia matou o gato, e a sua linhagem inteira.
Você já parou pra olhar para aquela pessoa, e reparar na forma como ela cria tanto sofrimento? Daquela forma inconsciente, como o gato que engasgou com as cinzas dos seus familiares carbonizados pela dúvida. A sua estátua, como que esculpida em carvão, a olhar os céus, incrédula, as nuvens se partindo, se afastando. É noite, e no céu não há estrelas. Só fuligem.
Poderia parecer uma tragédia, e certamente o seria. Seria um bom final escrito em sangue, com o sangue da caneta que o corpo gelado do poeta segura em seu rigor pós-morte. Com a convicção que este não teve em vida. Com tanta força, como se houvesse agarrado aquele momento entre os dedos e nunca mais fosse soltar. Como se fosse o momento mais feliz de toda a sua vida.
Meu coração está partido por saber que o véu preto que cobre seu rosto é fino o suficiente para que você me perceba sozinho, olhando para o cinza. A mistura de todas as cores. Me mantendo tão perto, mesmo sabendo que me mata te aspirar, te tragar, te saborear, como remorso juvenil, como a covardia do forte. É um homem morto o homem que não sabe compartilhar seus vícios; o que é um homem sem vícios, então?
Mas essa solidão já se tornou aturável. É motivo inclusive de conforto. Dizem que é efeito colateral de respirar tanta fuligem. Obrigado por isso. Por isso, eu te tenho tanto carinho. Mas me diga que você faria o mesmo por mim.
Você só está aqui por uma lembrança fatigada de algo que eu nunca terei; errar uma vez é humano, duas vezes é vício. Você colocou uma cortina entre nós: fiquemos os dois olhando para Deus com nossos olhos ferinos, com as unhas arranhando o pavimento até que o sangue verta e não consigamos segurar mais a caneta, então.
Eu posso te dar liberdade do seu arrependimento.
Eu posso te dar paz de espírito, com um sorriso falso.
Eu posso te desejar a Morte. Leia meus lábios, leia meus olhos.
Aqui você se apresenta, dedilhando sua culpa, com um silêncio que justifica esse ato de covardia, a orquestra das cinzas no vento, bailarinas de fumaça.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Náufrago
Contar uma mentira é fácil. Assim como é fácil para um mentiroso reconhecer outro, e por isso, a mentira é um terreno raso aonde se pisar. Ela atinge o fundo, invariavelmente, pela existência de uma verdade por trás dela. A mentira se aprofunda quando se mescla com verdades: uma mentira baseada na verdade é mais duradoura do que uma alucinação completa. Mas ainda assim, existe a verdade. Existe o fato, o real. Os melhores mentirosos são aqueles que não mentem; eles se convencem da mentira a ponto de se tornarem ela. Eles a vivem, acreditam piamente nela. Elimina-se a verdade, que é substituída pela mentira a se contar, e se assiste em seguida ao naufrágio da verdade pra sempre omitida. A arte, de fato, de mentir, consiste em viver a mentira.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Carta de Despedida
Se eu te dissesse um dia que eu nunca iria te machucar, e eu me certifiquei em não dizer, essa seria uma promessa que eu não seria capaz de cumprir. Se eu te disse qualquer dia que aquilo poderia ser amor eterno, eu vou limpar esse sorriso frouxo do seu rosto. Um rosto bonito e frágil, alegre e largo, como uma mentira. Se eu te fiz chorar mil vezes, você ainda me aceitaria de volta para mais duas mil, e eu ainda sentiria saudades - e eu jurei por Deus que nunca sentiria. Se eu te disse que eu estou bem, e que alcancei meus objetivos - se lembra?, - e que nenhum dos meus amigos sequer perguntou por você, você desmintiria? Mas é esse o preço de ser impessoal. Essa carta é impessoal, como a que você me remeteu há tempos atrás; as palavras parecem cair por si sobre a folha. E como ela, isso é uma carta de despedida; eu menti quando disse que não era você, e sim eu mesmo, e oh, que atrevimento o meu. Isso, sim, é uma carta de despedida, das que te ateam fogo pra ver em que cores você consegue se desfazer. Daquele meu jeito que te é familiar. Se eu te deixei esperando por dois longos anos, e você se sentiu abandonada e teimosa, eu rezei pra Deus que você nao me odiasse no fim. Se eu disse que voltaria pra casa em breve, um quarto vazio e um coração ainda mais solitário é o que você encontraria, com uma carta de forma exata entre as quatro paredes brancas. Mas você deixou as palavras caírem nas páginas, eu tentei gritar e não tive fôlego. Te pergunto se você está acordada agora: se você o beija e pensa em mim durante o ato. Espero que não. Não o satisfaria se ele suspeitasse que você beija a boca dele pensando na minha falta de caráter; essa que você compartilha atrás dos seus olhos enegrecidos. Eu poderia - sim, por que não? - fazer tudo certo. Quem sabe, se as estrelas se alinhassem, se o céu virasse veludo, se você colaborasse, se não fosse egoísta. Mas estou satisfeito, por agora, em desejar um lugar diferente, um tempo diferente, um ataque cardíaco, e um convite pra sua missa de sétimo dia. Eu sei que tive minha parcela de culpa. Eu sei que cometi uma calamidade de erros; mas você foi e será o mais gritante. E será pra sempre - o "pra sempre" que você sonha ter. Então, adeus, pra sempre.
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