segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sobre o campeonato brasileiro 2009 e as suas lições

É macacada.

2009 está acabando, e ontem acabou o campeonato.

Pois é, o Flamengo conquistou o título, com uma forcinha do Fluminense e Botafogo (só conferir os conflitos diretos dos dois times com os times do G4).

Agora, o Flamengo já é oficialmente Penta (1987 não vale, e nunca valerá).

Mas, vou te contar. Foi tenso ontem após o fim. As ruas viraram um verdadeiro pandemônio. Deu medo. Parecia aqueles filmes em que o fim do mundo se aproxima, os cavaleiros do apocalipse descem dos céus e a população enlouquecida vai às ruas destruir tudo que vê.

Eu saí da minha casa e fui levar minha namorada em casa em Icaraí. Flamenguistas bêbados ocupavam a rua. Tive que forçar a passagem, quase atropelando alguns. Por sorte, não sujei meu carro.

No caminho, em frente ao Fórum da Região oceânica, flamenguistas, comemorando um título queimaram um carro e dançavam em volta do fogo, como uma tribo africana.

Queimaram. Um. Carro.

Isso, porque GANHARAM o campeonato. Puta merda. Imagino se tivessem perdido.

Iriam sequestrar um ônibus, fazer os passageiros de refém, estuprar os passageiros, matá-los, estrupá-los novamente, estuprar o ônibus, e tacar fogo em tudo.


Em São Francisco, alguns imbecis caíram dentro do esgoto. Sei que é normal para a torcida rubro-negra tomar banho no esgoto, mas cair lá dentro bêbado é perigoso. Pode não achar a saída... ou morrer afogado.


Nenhuma grande perda, de qualquer forma.
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Bem, de qualquer forma, vamos deixar de falar mal dos outros e falar do que o campeonato brasileiro nos ensinou.

Pelo menos do que me ensinou.

Sou tricolor e vou dizer: teve momentos em que chorei que nem uma garotinha nesse campeonato.

Não sei direito explicar o que aconteceu esse ano, mas só sei que, no meio do ano, éramos lanterna do campeonato há umas 10 rodadas, ficamos 22 jogos sem ganhar (11 jogos sem ganhar, 1 vitória, 11 jogos sem ganhar). 98,5% é uma porcentagem absurda. Eu, sinceramente, já estava conformado com a queda.


Mas aí, tudo mudou.

Afinal, a vida é assim, não é?

Tinha uma única esperança: ganhar tudo. E foi o que fizemos.

Acreditamos, porque acreditar que era possível era tudo que era possível fazer.

Cara, eu já disse que chorei que nem uma garotinha. Mas foi mais de emoção, pela interação que a torcida e os jogadores tiveram do que por qualquer outra coisa.

Na final da Copa Sulamericana, quando perdemos, e a torcida começou a cantar pros jogadores, que foram pro meio de campo agradecer o esforço, não teve como segurar as lágrimas. Foi demais.


Se teve uma coisa que deu pra aprender é que realmente, nada é impossível.

Muito matemático deve ter torcido contra o Fluminense, para não ir parar no olho da rua.

Mas o que eu quero dizer, é que isso aqui não é só uma declaração para um time.

É uma mensagem de otimismo.


O que quero dizer é que, por mais manjado e idiota que possa parecer, não há coisa impossível. Então, não desista. Acredite, lute com força, que dá.

Pode parecer gay, discursozinho, lição de moral, mas não é. É o retrato de uma experiência real. E emocionante. E aí está, o Fluminense na Série A, para provar, o time do impossível.

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E parabéns a todos os times cariocas, por estarem novamente juntos na elite do futebol!


No final de contas, parece todos saíram felizes, não?


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Bônus?










EDIT: LOL!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Elefante

Então o que você resolveu, querida? E por que demorou tanto? Eu queria que tivesse algo que pudesse te manter aqui, eu queria que houvesse algo de errado comigo, mas não há. Tem que haver algo errado. Essas desculpas assumiram o controle. Então por que não dizer as coisas presas na sua cabeça e nunca ditas? Talvez você as diga o suficiente pra querer acreditar nelas. É assim que será? Como chegamos ao ponto em que amar se tornou tão doloroso? Aonde chegamos, querida? Eu não tenho o que dizer, porque tudo que eu posso dizer é pedir que você me entenda, e se eu pudesse pedir isso pra alguém, pediria pra mim mesmo antes de qualquer outro. Está tudo errado, aqui na savana. Já sentiu algo como sua personalidade se dividindo em duas? Três, quatro, oito? Quantas? Sabe o que é a dor do espírito? Não acredito que saiba, e nem acredito que lerás isso, então em frente com a orquestra, com esse balé de vultos em volta do leme. Eu dormi ontem à noite achando que te veria morta dentro do seu quarto, sabendo que você se sente tão sozinha lá dentro. Não importa as escolhas, você nunca saberá que nunca estará sozinha, e que eu estarei aqui, perdido em algum lugar do meu inferno particular. Deve ter algo de errado comigo. Por favor, me diga que há algo errado comigo, pra que eu possa me responsabilizar e consertar, eu mesmo, não ser medo. Eu nem sei que horas são, e pouco me importa. Perdi a noção do tempo enquanto preparava a nossa fuga para os lugares em que podíamos nos confortar. Tenho certeza que podíamos sair daqui até meia hora atrás. Tenho certeza que nunca nos livraremos dos sentimentos que isso agrega, e que é melhor eu não me importar. Se eu me sinto sozinho? O tempo todo. Mas se você vier comigo, então eu posso te mostrar que essas vidas que sentimos podem ser verdadeiras. Se você tirar seu tempo pra olhar em volta, não há nada de errado comigo. Não há nada de errado comigo que eu já não tenha mostrado. Não há nada errado comigo que já não tenha sido visto.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Slow Motion

Nada é tão pueril quanto o conjunto das palavras. Hoje eu posso dizer com todo o orgulho que eu desperdicei meu tempo. Posso afirmar com todo o orgulho que meu remorso me permite ter: sou representante de uma juventude perdida. O avatar de um potencial jogado fora, o estandarte de um coletivo cujas mentes não olham pro mundo com o mesmo carinho que examinam o próprio nariz. Me pergunto se sempre fora assim; se meus pais, com meus dezenove anos, também tinham a minha falta de determinação. E em caso positivo, se é esse defeito hereditário. E mais importante, se é esse defeito contornável, reparável. A sensação mais triste que um homem pode carregar no peito marcado é o desperdício. E o tempo não volta, o mundo não para, não existe magia, vacina, oração, não existe milagre, não existe solução instantânea. Tantas chances e tanta negligência, tanta pressa, tanta insegurança, tanta angústia, e o ponteiro marchando incansável em direção à lástima de se ver a vida passar, a capacidade bater forte contra o lado interno do tórax e implorar pra ser lembrada; o exercício te olha nos olhos e resignado, olha para outro lado, como o infiel nega a visão da cruz, e diz o que seus pais, seus mentores, e seus ídolos diriam, "que perda". Quantos passos o relógio deu em direção ao fim desde que comecei a perder minha identidade? Quanto tempo me resta pra começar de novo, e quanto tempo me restará até que eu enfim comece? Não existe retorno e as saídas perdidas vão ficar no campo do improvável. Pare de mentir para si mesmo e vá atrás do que deixou de lado. Eu tenho vivido em câmera lenta. Quantas voltas o mundo deu e eu não vi desde que comecei a escrever isso?

sábado, 7 de novembro de 2009

Formas idiotas que já me machuquei

Tem que ter estômago, hein galera!



Inaugurando a Sendas:

Ano 2000. Ou 99, 98. O Itaipu Multicenter tinha acabado de inaugurar. O Supermercado Sendas, consequentemente, também.
Naquela época eu era uma criança mongol (hoje sou um jovem adulto imbecil).
Entrei naquele Supermercado lindo, gigante, maravilhoso, com o chão lustrado brilhando de novo.
Entrei correndo, escorreguei, caí de costas, em cheio no chão, derrubando uma prateleira de produtos de limpeza no trajeto ar/chão.

Uma velhinha que passava me perguntou: "É uma pegadinha?".
Não lembro o que disse, só lembro que não mandei a velha ir se foder.




O trauma da casca da pipoca:

Ano 2000. Ou 99. Com certeza não era 98.
Fui no cinema Icaraí com uns amiguinhos (incluino o Oráculo) ver Pokémon - O Filme.
No meio da sessão engasguei com uma pipoca.
Mesmo meia-hora depois, apesar de ter bebido água, etc, ainda conseguia sentir a casquinha da pipoca na minha garganta. Senti ela lá durante 6 meses.
Fiquei 6 meses sem conseguir comer nada sólido, só bebendo líquidos (sopas e caldo de feijão), com medo de engasgar.
Quando me perguntavam, eu falava que estava de dieta.
Eu era muito gordo com 10 anos.
Mas a sequela psicológica me fez emagrecer 12 quilos.
Melhor do que Cogumelo do Sol.

Nunca mais aguentei tomar sopa na minha vida.




Bola 1 (ou , cortando o dedo jogando sinuca):

Fui passar um feriado de 2003 num sítio para funcionários públicos com meus pais e um amigo.
Fomos nós dois jogar Sinuca na área de jogos.
Eu sempre fui ótimo na sinuca. Só sou ruim de acertar as bolas. E firmar o taco. E encaçapar.
Bem, fui tentar firmar o taco, fazendo-o correr na direção do meu indicador esquerdo para acertar a bola branca, enquanto eu segurava o taco com a mão direita.
Ao dar a estocada na bola, esfolei meu dedo com a ponta do taco.

Arranquei boa parte da pele do meu indicador esquerdo e caguei o tapetinho verde todo de sangue.
Saí dali logo para dar o benefício da dúvida aos funcionários do hotel quanto à mancha na mesa.





Grampeando o Dedo:

Essa é clássica. Quem nunca grampeou o dedo?
Bem, eu não conheço ninguém além de mim.
Botei a folha de papel debaixo do grampo, abaixei pra grampear, dei uma porrada no grampeador... mas esqueci de tirar meu dedo de baixo.
O grampo cravou no meu dedo.
Foi uma dor excruciante ter um pedaço de metal dentro do meu dedo, ainda que pouco mais de 1 cm. Arrancar o grampo foi pior ainda. Sangrou horrores depois. E ainda acertei um nervo que inchou meu indicador.
Não grampeiem o dedo, falou?
Fica a dica.


OBS: Esse ano agora, em 2009, no meu estágio da defensoria, contando essa história para uma colega de trabalho, resolvi demonstrar pra ela o que tinha ocorrido. Enquanto ela segurava o grampeador, fui mostrar a posição do grampo...mas sem querer, fiz a mola do grampeador correr, cortando a mão da garota. Fiquei com um certo remorso por ser tão atrapalhado.
(...)

Ainda bem que não foi comigo.





Batendo no poste (andando):

Essa foi no meu condomínio, e a única que deixou mesmo uma cicatriz. Minha namorada estava vindo de ônibus para o meu condomínio, mas estava faltando dinheiro da passagem dela, então eu saí de casa e fui andando pro ponto para encontrá-la e completar os 5 centavos que faltavam que o cobrador ficava enchendo saco.
No caminho, tropecei num paralelepípedo solto, e bati com a mão em um poste.
Um poste, parado, desses de luz.
Cortou a minha mão de uma forma que nunca tinha cortado antes.
O sangue parecia água conforme ia saindo da minha mão.
Segurei a minha mão com a outra, mas ainda tinha que levar os 5 centavos no ponto de ônibus. Só que o dinheiro estava na minha calça, e eu não podia meter a mão não cortada, senão ia cagar minha calça toda!
Saí do condomínio e andei até o ponto.
Pedi para uma mulher: "Ei, por favor, coloque a mão no meu bolso e pegue 5 centavos?"
A mulher recuou horrorizada, vendo o sangue pingar da minha mão que pressionava a outra, jogou 5 centavos que ela tina no chão e saiu correndo.
Foi tenso pegar os 5 centavos do chão.
Paguei o ônibus e minha namorada queria me levar pra um hospital pra dar ponto.
Não dei ponto, por preguiça e por medo.

Em um mês cicatrizou, deixando uma cicatriz de recordação, e como lição para nunca bater em um poste denovo no futuro, andando ou de carro.



Bola Murcha:

A Faculdade de Direito da UFF possui uma quadra poliesportiva. Porque temos, eu não sei.
Só sei que o pessoal joga bola frequentemente.
Eu sempre fui um merda no futebol, uma vergonha.
Sempre era o último a ser escolhido quando tiravam time na aula de educação física.
Na verdade, eu não era escolhido. Sobravam eu e outro cara, escolhiam o outro cara e eu ficava com o outro time.
No entanto, um dia desses resolvi jogar uma pelada com o pessoal. Só tinham uns 7 caras, 8 comigo. Que mal poderia haver?
Fui lá, jogando, mal.
Todos fizeram 3, 4 gols pelo menos.
Eu estava lá há quase 1 hora, morto de cansaço, respirando como um porco (totalmente fora de forma).
Até que a bola veio parar no meu pé e eu estava no ataque.
Corri para a área, driblei um zagueiro (!), entrei na pequena área, driblei o goleiro (!!!), fiquei na cara do gol... e errei.
Mas não "errei" apenas.
Foi épico. Quando fui chutar a bola com o pé esquerdo, a bola andou. Chutei o ar vazio, perdi o equilíbrio e cai (novamente) de costas, sem camisa e suado, estatelado no chão.
Levantei com as costas sujas da poeira do chão, com todos rindo de mim.

Se tivessem filmado a cena, não tenho dúvidas de que eu ganharia o troféu de "Bola Murcha" do Fantástico.

Essa eu podia ter previsto...




A Escada Rolante:

Essa não precisa nem falar, né?




Armando a barraca:

Idiotice clássica.
Fui na praia de Camboinhas com a namorada e uns amigos.
Chegando lá, peguei o pau da barraca, e como macho alfa do grupo, resolvi armar a barraca.
Enfiei o pau na areia (*bateria*). Mas na primeira vez não foi fundo o bastante.

Então, me preparei para a segunda estocada.
Concentrei toda minha força em minhas pernas para fornecer um apoio para me dar força, coloque força nos meus braços e enfiei o pau da barraca na areia com tudo.....
....incluindo a minha cara.

Eu enfiei o pau com tanta força que me abaixei. Meu rosto foi de encontro com um ferro na haste, onde fixaria a parte superior da barraca.

Cortei o queixo no meio da praia lotada.
Não foi muito fundo, pelo menos. Fui na água limpar o sangue escorrendo.


Parar estancar o sangue e disfarçar o machucado. Fiquei com a mão no queixo e com uma sombrancelha erguida, fazendo pose de intelectual o resto da tarde.




Meu amor incondicional pela humanidade:

Estava eu no Sam's Club fazendo compras, quando vejo aqueles rolos de papel alumínio (aqueles de cozinha).
Vejo que tem um rolo padrão de 7,5m vendendo, bem como um rolo MUITO maior, de 100 m.
Perplexo, pego aquele rolo e sinto o peso.
Penso: "Meu Deus, isso aqui é quase uma pedra! Pode matar alguém se acertar na cabeça!".

Burro, resolvi testar a minha teoria...em mim mesmo.

Dei uma pancada (não muito forte, pra falar a verdade), meio que de brincadeira no meu cocoruto (parte de trás da cabeça, para quem não sabe).
Só escutei um barulho oco, e desarmei no chão.
Dessa vez cai estatelado de frente, para variar. Incrivelmente, apesar de não ter reação nem pra colocar a mão na minha frente, não me machuquei.
Acho que nem cheguei a desmaiar, porque logo depois, me levantei. Ninguém me viu caindo, e se viu, ninguém parou pra me ajudar.

Levantei, coloquei o rolo no lugar, e saí andando, meio tonto.

As coisas que eu não faço por amor à humanidade....

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Maria

Posto aqui um texto redigido pelo amigo Pedro Stelling, que me pediu pra colocar esse poema no blog. E aí está! :D

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Com a aurora vem o despertar
Com o sol, a solidão.
Apenas sou,
Não há ninguém.
Procuro, e não há ninguém
Insisto, e ela não vem.


Passa o dia, aumenta o calor
Aumenta a dor,
Cresce o pavor.
Pavor da solidão, do que sente o coração
Pavor de ser,
E medo de dar a mão.


Ao crepúsculo, a luz se vai
A vontade se esvai
E a solidão persiste.
O silêncio que eu grito
Sai rouco, sai triste,
Pois apenas de aflição consiste.


Sentado em minha cadeira,
vago pela escuridão
à procura dela.
Minha paz, meu açoite,
Meu viver, minha noite
Minha droga, meu tudo.


Meu tudo, contudo, está vazio
Está frio
Suas cinzas, pelo rio.
Deito com o dia claro, a noite já é passado
Assim como Maria.
Vou sonhar com Maria.

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Cheers pro Stelling!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Prematuro, Parto, Fórceps

Eu vejo tudo de cima de um muro. E assim dividem-se territórios, estabelece-se a fronteira, fico no limiar. E quem nunca se protegeu? O instinto de sobrevivência existe em todos nós; e todos nós nos defendemos o tempo inteiro. E quem não tem defesa, ataca; quem não faz nenhum dos dois, entra na ambulância de maca. Eu posso olhar pra baixo e ver uma vida passando debaixo dos meus pés. Eu vejo formigas trabalhando, eu vejo gente sonhando coisas diferentes, vejo falhas, sucessos, orações, blasfêmias, e de cima do meu muro, eu me equilibro como numa corda-bamba. Mas é confortável aqui. O frio desce nos meses mais gelados e a brisa fresca ajuda a aliviar o calor do verão. Mas se eu pudesse, desceria. Seria menos confortável. É complicado andar pra frente num muro como corda-bamba. No meio-termo de dois pólos, duas órbitas revolventes, algo como um refrão de bolero. Posso ver daqui o riacho aonde eu lavo a minha culpa, exumo meus cadáveres, lavo minhas mãos. Desse muro alto, dá pra ver o céu azul, que às vezes fica cinza, às vezes torna púrpura, vermelho, negro, mudando de tom, tanto como eu. Dá pra ver isso tudo e rir com sarcasmo. O que seria da convivência comigo mesmo, não fosse o sarcasmo? Eu posso rir de tudo, como uma Hiena. E daí se eu não sei sentir? Que se tem pra sentir em cima de um muro?
Eu vejo tudo de cima de um muro, e desse muro alto eu vou ver cair do céu lágrimas de despedida.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Amor Não É Suficiente

O que seria do amor não houvesse a dor do poeta? Seria algo que teríamos esquecido, como o latim? Seria a linguagem universal de um mundo por baixo do mundo - por dentro do mundo - onde os sofredores dialogariam suas condenações eternas, seu arrependimento interminável de ultrapassar os limites da razão para o espaço Além? Seria a salvação, ou arma biológica?
O que seria do mundo se ainda houvesse o amor? Somos nós os responsáveis, mas isso nos faz os assassinos ou os justiceiros? Fizemos o que podíamos pra sobreviver, como sempre fazemos, como tudo o que fazemos. Crucificamos o amor, e os últimos filhos do Homem estão sendo caçados; é a temporada de caça às bruxas. Os amantes carregam cruzes, cercados por uma floresta de concreto, aonde a vida é dura, já o tenha dito um velho sábio, sábio poeta, que cantava o amor.
O que seria de mim se eu soubesse a linguagem do amor? Seria mais completo, ainda mais simples, ou seria mais um ladrilho na avenida? Substituiria o foco das minhas preocupações, perderia o fogo de viver, acenderia a vontade? Mas eu nem sei o que é amar direito. Não saberia definir se me pedissem. E não sei se isso me faz tanta diferença. Talvez um dia eu saiba a diferença; talvez saber a diferença seja a resposta, a diferença em si.
Talvez um dia eu pare de me perguntar esse tipo de coisas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Se Eu Dissesse

Eu me pergunto que poder é esse você possui, capaz de roubar a minha calma, tão impassível sentado no centro dessa sala de espelhos e fumaça. Não há teatralidade aqui: esta é uma sala em chamas, enquanto eu me pergunto quantos de mim você vê refletidos nestas paredes, através de quantos de mim seus olhos conseguem enxergar, e quantas respostas cujas perguntas eu sequer conheço você seria capaz de roubar de mim.
Essas perguntas me esfolam em silêncio o tempo inteiro. Eu sou um homem ingênuo que acredita que a ignorância é uma benção e que a curiosidade é capaz de mais mal do que tirar a vida de um gato, mas que se arrisca a lançar as perguntas que, sem respostas, levariam mais do que homens e felinos à loucura.
Você já parou pra olhar para outra pessoa, e observar a forma como ela cria tanta angústia para si? Daquela forma inconsciente, como quem engasga com as cinzas dos seus familiares carbonizados pela dúvida. Você se ergue como uma estátua, como que esculpida em carvão e brasas, incrédula a olhar os céus, as nuvens se partindo, se afastando. É noite, e no céu não há estrelas. Só fuligem.
Poderia parecer uma tragédia, e certamente seria um terceto final apropriado para um soneto escrito em sangue, com o sangue da caneta que o corpo gelado do poeta segura em seu rigor pós-morte. Com a convicção que este não teve em vida. Com tanta força, como se houvesse agarrado aquele momento entre os dedos e nunca mais fosse soltar. Como se fosse o momento mais feliz de toda a sua vida.
Meu coração está partido por saber que o véu preto que cobre seu rosto é fino o suficiente para que você me perceba sozinho, olhando para o cinza, a mistura de todas as cores. Me mantendo tão perto, mesmo sabendo que me envenena lentamente te aspirar, te tragar, te saborear, como remorso juvenil, como a covardia do forte. É um homem morto o homem que não sabe compartilhar seus vícios; o que seria de um homem sem vícios, então?
Eu encontrei conforto nessa solidão cativa. Eu respirei tanta fuligem que isso já não me agride mais: obrigado por isso. Por isso, eu te tenho tanto carinho. Mesmo ciente de que você jamais faria o mesmo por mim.
O que me restou de você foi uma lembrança fatigada de algo que eu nunca terei; errar uma vez é humano, tantas vezes quanto eu errei é um vício. Você colocou uma cortina entre nós: fiquemos os dois olhando para Deus com nossos olhos ferinos, com as unhas arranhando o pavimento até que o sangue verta e não consigamos segurar mais a caneta, então.
Eu desejo que você olhe profundamente para mim e leia o que está escrito nos meus olhos. Leia meus lábios enquanto eu sussurro que posso te dar liberdade do seu arrependimento, que eu posso te oferecer paz de espírito.
Eu posso te desejar a Morte. Leia meus lábios, leia meus olhos.
Aqui você se apresenta, dedilhando sua culpa, com um silêncio que somente justifica esse ato de covardia, a dança das cinzas no vento, bailarinas de fumaça.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Náufrago

Contar uma mentira é fácil. Assim como é fácil para um mentiroso reconhecer outro, e por isso, a mentira é um terreno raso aonde se pisar. Ela atinge o fundo, invariavelmente, pela existência de uma verdade por trás dela. A mentira se aprofunda quando se mescla com verdades: uma mentira baseada na verdade é mais duradoura do que uma alucinação completa. Mas ainda assim, existe a verdade. Existe o fato, o real. Os melhores mentirosos são aqueles que não mentem; eles se convencem da mentira a ponto de se tornarem ela. Eles a vivem, acreditam piamente nela. Elimina-se a verdade, que é substituída pela mentira a se contar, e se assiste em seguida ao naufrágio da verdade pra sempre omitida. A arte, de fato, de mentir, consiste em viver a mentira.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Carta de Despedida

Se eu te dissesse um dia que eu nunca iria te machucar, e eu me certifiquei em não dizer, essa seria uma promessa que eu não seria capaz de cumprir. Se eu te disse qualquer dia que aquilo poderia ser amor eterno, eu vou limpar esse sorriso frouxo do seu rosto. Um rosto bonito e frágil, alegre e largo, como uma mentira. Se eu te fiz chorar mil vezes, você ainda me aceitaria de volta para mais duas mil, e eu ainda sentiria saudades - e eu jurei por Deus que nunca sentiria. Se eu te disse que eu estou bem, e que alcancei meus objetivos - se lembra?, - e que nenhum dos meus amigos sequer perguntou por você, você desmintiria? Mas é esse o preço de ser impessoal. Essa carta é impessoal, como a que você me remeteu há tempos atrás; as palavras parecem cair por si sobre a folha. E como ela, isso é uma carta de despedida; eu menti quando disse que não era você, e sim eu mesmo, e oh, que atrevimento o meu. Isso, sim, é uma carta de despedida, das que te ateam fogo pra ver em que cores você consegue se desfazer. Daquele meu jeito que te é familiar. Se eu te deixei esperando por dois longos anos, e você se sentiu abandonada e teimosa, eu rezei pra Deus que você nao me odiasse no fim. Se eu disse que voltaria pra casa em breve, um quarto vazio e um coração ainda mais solitário é o que você encontraria, com uma carta de forma exata entre as quatro paredes brancas. Mas você deixou as palavras caírem nas páginas, eu tentei gritar e não tive fôlego. Te pergunto se você está acordada agora: se você o beija e pensa em mim durante o ato. Espero que não. Não o satisfaria se ele suspeitasse que você beija a boca dele pensando na minha falta de caráter; essa que você compartilha atrás dos seus olhos enegrecidos. Eu poderia - sim, por que não? - fazer tudo certo. Quem sabe, se as estrelas se alinhassem, se o céu virasse veludo, se você colaborasse, se não fosse egoísta. Mas estou satisfeito, por agora, em desejar um lugar diferente, um tempo diferente, um ataque cardíaco, e um convite pra sua missa de sétimo dia. Eu sei que tive minha parcela de culpa. Eu sei que cometi uma calamidade de erros; mas você foi e será o mais gritante. E será pra sempre - o "pra sempre" que você sonha ter. Então, adeus, pra sempre.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Escada Rolante

E aí povo.
Mais uma história curta, porém surpreendente.

Então: as férias que tirei do mundo estão quase no fim (apesar da minha amiga gripe suína estar ajudando a esticar-las), e estava lá eu passeando com minha namorada no Itaipu Multicenter.

Um Shopping que tinha potencial para ser um grande algo, mas que acaba sendo um grande nada. Prometeu um Outback, e trará um Habib's. Trocou um cinema por um Ponto Frio. E cuja a única grande novidade nos últimos 5 anos foi a colocação de uma escada rolante de um sentido só, ligando duas praças de alimentação absolutamente sub-utilizadas.

Pois bem, lá estava eu, passeando no Shopping deserto, quando subo uma dessas escadas rolantes, subindo atrás da minha namorada.

Como todo bom namorado, resolvi dar um beijo em seu cangote. Porém, ela estava um degrau acima da escada que subia, portanto, resolvi subir um degrau, me posicionando no mesmo degrau que ela.

Má idéia. A escada rolante chegou em seu fim enquanto eu subia, retificando os degraus. Perdi o equilíbrio e tropecei. Tentei agarrar o corrimão, mas ele andou (é uma escada rolante, ou seja, o corrimão anda!).

Nunca tinha caído antes numa escada, nem numa normal. Certa vez, sem querer, empurrei um amigo que rolou um lance inteiro (mas sem se machucar). Mas comigo, nunca tinha ocorrido, no máximo cair de bunda uns dois degraus.

Dessa vez não teve jeito. Rolei a escada rolante.

Comecei a cair, doeu, porque tinha os dentes de metal no final de cada degrau, que arranhavam bastante. Imaginei que o shopping todo estaria me olhando, e que eventualmente eu derrubaria alguém, levando essa pessoa até o final da escada comigo, ou tendo essa pessoa para parar a minha queda.

Azar: O shopping estava bem vazio, não tinha ninguém atrás de mim.

Depois de uns 15 segundos rolando, percebi que tinha alguma coisa errada: Aquilo estava durando muito mais tempo do que devia durar.

Foi quando, para meu horror, percebi o que ocorria: enquanto eu rolava escada abaixo, ela ficava subindo, causando um ciclo que supûs que não fosse acabar nunca!

Pensei: Ora, logo alguém virá e vai desligar a escada. Mas me lembrei que não há um só segurança no shopping.

Bem, não precisei me preocupar muito. No final das contas, a aceleração da gravidade acabou vencendo a velocidade da escada de subida. Uns 10 segundos depois e cheguei no começo da escada, onde ela fica reta. Ela começou a subir. Bem doído, e com um corte no braço, me levantei no degrau.

Deu tempo de ver uma pequena platéia no pé da escada, de umas 7 pessoas, que deviam ter observado o espetáculo.

Abaixei a cabeça e subi a escada.

No topo, minha namorada correu pra ver se eu estava bem. Quando constatou que não tinha nenhum machucado sério, fingiu que não me conhecia. Descemos pelo elevador, pagamos o estacionamento e viemos para minha casa, tratar do meu braço...

terça-feira, 28 de julho de 2009

À Sangue Frio

Se eu fosse você e soubesse as consequências dos meus atos, eu guardaria as lentes através das quais você me persegue. Inverter os papéis não vai te salvar do que você construiu. E, em especial, me dizer o que não existe pra facilitar o drama não vai me cegar. Eu vejo além, e embora você negue, eu sinto além. Eu já sabia que isso tudo viria a acontecer - e em parte aconteceu porque eu quis. E isso tudo porque você é parte de mim, no mar de ironias que você cravejou desde o começo. Ou: se alguma vez nesse tempo alguém mentiu, ambos sabemos que não fui eu. Não fui eu o insincero, o medroso. Experimentei exatamente o que eu estava vivendo, enquanto você via tudo escondida debaixo da cama; e agora você vai jogar a culpa em mim. Sinta-se à vontade. Não vai mudar o Plano maior. Você ainda vai pensar em mim em noites geladas, e eu ainda serei insone. Você ainda vai ser sentimento, eu ainda serei razão, e nenhum de nós dois tem escolha... E não fui nem eu quem chegou à essa conclusão, não é? Você pode correr - e vai correr, porque faz parte da sua personalidade, porque eu te ensinei assim, - mas o ponto sempre acaba sendo o mesmo, e eu estou aonde gostaria de estar. No fim das contas, isso se resume à você e eu estarmos ligados e que, em algum momento próximo, a corrente vai te puxar e você vai cair, de volta aonde eu queria que estivesse, e aonde você vai querer estar. Então, até breve.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Amanhã Eu Serei Você

Nesse circuito, a frequência está prestes a se quebrar. Os alto-falantes mal podem se mover. Não é mais um teste. Sintonize a transmissão, testemunhe o jet lag, olhe no espelho, ajuste a antena. Estilhace as lentes, retire os fragmentos. Engasgue com suas palavras presas em sua garganta. Quanto tempo as rodas conseguem manter uma curva à essa velocidade? Em cada quarteirão, uma lembrança: você não pode impedir essa interseção. A cada volta, florestas mortas de apartamentos se erguem como antenas. As milhas se somam e os dias se subtraem. Corte a tintura negra do meu cabelo antes que a manhã do dia de Ano Novo nos banhe, e eu volte à mim mesmo nas chamas. Antes que eu queime como o coração de papel de presidentes mortos. Nós estamos muito perdidos para perdemos a esperança. Talvez a noite pareça tão sombria porque o dia está muito claro pra que nós vejamos que estamos curados. Estilhace as lentes, retire os fragmentos, estamos curados. Engasgamos com palavras presas em nossas gargantas e estamos curados. E essa é a trilha sonora ouvida de outro quarto. O pianista balança do teto, enforcado com cordas de piano, mas o piano automático continua a canção. Sente-se e sintonize a transmissão. Isso não é um teste. E enquanto a linguagem se dissolve e a frase é suspensa, uma garoa de alfabeto sussurra letras em uma sentença aleatória - aabcttipachdefg e contando. Desde que confundi os verbos "viver" e "amar", e o objeto de cada ação, eu não consigo me lembrar quem é você.
Mas amanhã, eu serei você. Só atenda o telefone...
Eu estou ligando da sua casa, do seu quarto, em seu nome, deitado em sua cama, sonhando os seus sonhos, eu escuto a sua voz presa em minha garganta enquanto eu canto que "isso é só um sonho no dia de Ano Novo". Nós vamos voltar à nós mesmos nas chamas. No fogo, nós estamos curados. Nós estamos curados. Estamos curados.

- Ao som de: Thom Yorke - Cymbal Rush -

domingo, 28 de junho de 2009

Nenhuma Surpresa

Eu me pego constantemente sonhando que não acordo. O melhor dos meus devaneios noturnos seria o que durasse pra sempre. Porque existem certas coisas que não se pode enfrentar, e você mesmo é uma delas. Não importa o quanto você lute, você estará sempre machucando à você mesmo. Certas coisas são melhores aceitas do que inconformadas. Irônico ser uma delas o quanto conheço de mim mesmo. É cíclico de uma maneira que não sei explicar, mas posso prometer, como a maioria das coisas que penso. Eu me pego constantemente desejando imergir num sono que nunca mais termine. Um sonho bom. Mas sempre tem um amanhã. E o amanhã não me guardou nenhuma surpresa, nenhuma festa de aniversário. O amanhã me remete ao "ontem", porque a vida é cíclica. O amanhã me remete à verdade inexorável de que eu sei que tudo é cíclico. Certas coisas são melhores deixadas pra morrer no limbo do esquecimento, idéias que naufragam e atingem o fundo do oceano e lá moram até o dia do Juízo em que todos as capitâneas enterradas na areia vão se reconstruir sob bandeiras piratas e navegarão à poluir seus oceanos. Porque são infortúnios seus, e só seus, porque você não pode compartilhar isso com ninguém. Porque ninguém precisa saber a farsa que é. Ninguém precisa saber a farsa que você é. A minha funciona bem o suficiente quando eu esqueço dela, e a sua? Mas eu sou perceptivo demais pra sustentar isso por tanto tempo. A máscara cai, desce a Razão dos céus em chamas. Ela é minha concubina descontente. Meu filho pródigo. Meu cão raivoso. Ela não me deixa mentir. Às vezes, eu vejo o quão sem sentido é a vida, mas só quando eu consigo sentir alguma coisa; em tudo o mais, é só a máscara. Eu me pego constantemente desejando nunca mais acordar. Talvez, quem sabe, amanhã...

- Ao som de: Gorillaz - Tomorrow Comes Today -

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Mais Badalado

Eu amo o acaso, mas às vezes, parece que eu me amo mais. Eu amo a paz, eu amo a guerra. Eu amo os oceanos, eu amo as costas. Mas não tenho amor por ninguém. Talvez isso seja lealdade. Mas ela não sabe, então pouca diferença faz. Eu engano, eu caio, corro até meus sangue virar ácido de bateria. Eu a amo com todo o meu coração. Cada veia, cada vaso, cada bala alojada no peito. Com todas as flores que eu já arranquei do solo. Ela me prometeu granditude, status, uma colocação desejável, acima de todos os outros, meu rosto em louros cobrindo as capas de revistas. Papel como eu nunca havia compreendido. Seus olhos brilham em verde com o logo do meu sonho, o próposito dessa cena, e uma obsessão obscena pelo brilho. Ela seria minha Rainha. Eu seria seu Rei. Ela me daria o nome; e nós dois reinaríamos, pra sempre. E eu nunca mais sentiria dor. E nunca mais me sentiria sem prazer, sozinho; nunca mais. E se a chuva cessasse, e tudo que cerca secasse, ela choraria, pra que dos seus olhos houvesse água pra mim. Ela me ensinaria a voar, até acolchoaria minha queda, se minhas engrenagens um dia travassem, e eu mergulhasse Céu abaixo. Mas ela me manteria no alto... E se um dia eu morresse, ela comissionaria monumentos em minha homenagem, e em sua lástima. Ou talvez ela só se aposentasse: um fósforo aceso no Céu acende as chamas do Inferno. E eu então serei.
E assim começou nosso Reino. A trindade: eu e ela. Nenhum meteorologista poderia prever o que nós passamos - bom ou mal. Nenhum sombreiro evitaria o que o tempo nos reservou. O Céu caia, o Céu chovia, o Céu era o Inferno. E reze pra Deus para que a enchente cesse. "Você vai precisar de um submarino até que ele responda". Você acha que tudo é árido quando é positividade. E este foi mais um Julho em meu verão interminável. E os límpidos entreolhavam, por entre suas histórias de pais desfalecidos e mães desesperadas, mas não o suficiente para mantê-los de nós. Pressionados a rir de uma vida não veloz, e lutando contra o resto da classe. "Você pode sentir?" - foi o que fui perguntado. "Você a ama?" - eu disse "eu não sei". As Ruas têm meu coração, O Jogo tem minha alma, e uma vez perdida de sol nascente não marcaria sua alma, jamais. Eis que o remetente era uma mãe chorosa de um filho desonroso: quem é a mãe para uma filha de quem eu sou pai à distância? Minha nova dama me deu uma Mercedes e um colar com uma chave sólida de ouro, como a partida de um carro, o abridor de um portão, ou dois quilos do puro. Você me deu um sonho, mas e recentemente? E então eu ri, Cisne. Justo na cara dela. Mas existem mais peixes no oceano, e eu estou na minha missão para ser.
Que Deus tenha simpatia, e perdoe meus dias de Hiena.
Essas são crônicas, emergidas do túmulo para fazê-lo perder seu ano escolar, e perseguir um Graal Profano como um tolo, partilhar idéias com os vagantes das piscinas, falando rápido como um meliante.
Não existe um Céu acima de você, nem um Inferno abaixo, e nenhum dos dois o aceitaria.
Então segure suas lágrimas quando estiver ausente, e mantenha sua fé, enquanto procuramos o Ser.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Remover-se

Você provavelmente nem sabe que esse espaço existe; mas eu te agradeço por não saber. O fato de você desconhecê-lo permite exatamente que ele exista.
Provavelmente, você nem sabe que eu existo. Você tem menção a um terceiro, mas não o verdadeiro - ou os verdadeiros; ou tudo que os envolve.
Você não sabe, provavelmente nunca lhe ocorreu a possibilidade, que tudo que está escrito nessas páginas virtuais ocorra tão perto de você. Quem sabe você nem tenha a capacidade de entender.
Mas já lhe deve ter ocorrido que eu talvez seja diferente. Em tudo. Você já me fez essa pergunta, mas estava distraída pra perceber que a pergunta havia sido, de fato, essa.
Você já imaginou que eu talvez sinta diferente. E isso inclui tudo. Você só não sabe que "tudo" te inclui de forma específica.
E acho que você já percebeu o suspense no ar, suspenso entre olhares. E já percebeu que não foi a única a notar essa malha fina que paira em nosso entorno.
Então se permita. E permita outro. Gire a roda, sopre os ventos, mude os ares. Dê o primeiro passo. E ganharemos o mundo, e mais. Ganharemos o que nem a ele pertence: ganharemos tempo.

- Ao som de: Radiohead - All I Need -

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A vida imita a arte...

Sei que muito provavelmente, esse post vai me mandar para o inferno.
Mas, já me mantive quieto sobre o assunto por tempo demais, e não resisti à notícia de hoje...



"Cresce mistério sobre tragédia: destroços não são do avião

JORNAL O GLOBO - 05/06/2009

Cresce mistério sobre tragédia: destroços não são do aviãoA Aeronáutica afirmou ontem à tarde que os destroços recolhidos no Oceano Atlântico não são do Airbus 330, voo 447, da Air France, apesar de ter dito o contrário durante todo o dia.
A peça mais importante enviada para análise, um pallet, espécie de engradado para transporte de carga, é de madeira, material não usado pelo avião. A Rádio Europe 1, em seu site, afirmou que os primeiros destroços localizados pela FAB, na terça-feira, também não foram identificados por especialistas franceses como partes do Airbus.
Foi o ministro da Defesa, Nelson Jobim, quem anunciou naquele dia que o material, não fotografado e nem recolhido, seria do avião. No Rio, oceanográficos dizem que é comum encontrar lixo na área vasculha pelas equipes.
O mistério do sumiço da aeronave cresceu. Um piloto espanhol que voava no mesmo horário e em rota próxima disse ter visto um clarão, em trajetória descendente, onde o avião teria sumido."



Engraçado, cada vez mais esse acidente me lembra uma série que eu acompanho...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

(sem título)

Eu não sei como vou ultrapassar tudo isso. Não sei o custo dessa travessia. E por isso eu me desfaço. Eu não sei o que pretendo cruzar, nem como, nem quem vou encontrar durante a caminhada - nem quem me tornei quando me esquivei dela. Eu me desfiz em pedaços. De carregar uma cruz a não ser capaz de admirar uma. São irônicos os extremos, mas é uma pena que a ironia tenha se perdido. Não se deixe enganar: quando olhar pra mim, não deixe que minha segmentação te ludibrie. Quando olhar pra mim, talvez estejas olhando para a pessoa mais solitária que já cruzou seu caminho.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Porta do Porão

Dr. Lilian Thurman: Do you feel alone right now?
Donnie: Oh, I dunno. I mean I'd like to believe I'm not but I just... I've just never seen any proof so I... I just don't debate it anymore, you know? It's like I could spend my whole life debating it over and over again, weighing the pros and cons and in the end I still wouldn't have any proof so I just... I just don't debate it anymore. It's absurd.

Acho que é hora de admitir certas coisas. Como, por exemplo, de que eu talvez esteja voltando. O silêncio mudou de padrão, e têm soado cada vez mais familiar, como outrora. A solidão é diferente. Pra me sentir sozinho, precisaria estar inserido em um contexto; a percepção da solidão de caráter depende que o objeto esteja inserido num ambiente comunitário e mesmo assim, ainda sinta-se um buraco negro. Acho que você não pode fugir muito de quem você é, a princípio. Mas até isso perdeu o sentido. E é nesse espaço que me encontro: nada mais faz sentido. É tudo irrelevante, e eu não sei o que importa de verdade. Talvez não; talve a questão não seja ainda essa. Possivelmente, a questão é: existe algo que importa de verdade? - e o silêncio é novamente familiar, epifânico. Acho que você não pode fugir muito de quem você é, a princípio. E de uma forma astrológica, somos todos definidos no princípio, no momento da concepção. Não existe fuga, não existe mudança, só soma - e é por isso que a História nunca perde páginas. Da forma confortante em que se coloca, todos nós temos uma missão, e viemos ao mundo para completá-la. Acho que é hora de admitir que talvez eu não esteja mais fantasiado de coelho: eu nem sei mais se eu nasci um ser humano.

Existe um motivo pelo qual não se permite olhar pra dentro. Existe uma razão para que não se decifre sentimento em forma de razão. O interno não me é agradável - e por isso, não sou. Por isso agrego múltiplos, por esse motivo descentralizei o ego próprio. Para afastar a consciência do que existe por dentro. Não há uma razão, não há um marco, nunca houve de outra forma. Não é questão de acontecimento, é questão de ser, por si só. Acho que você não pode fugir muito de quem você é, a princípio. E se você é o que esconde, eu sou um pesadelo.

Gretchen: Some people are just born with tragedy in their blood.

Eu queria dizer, objetividade, mas falhei novamente. Me perdoe.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Madrugada Assonora

Eu tenho um problema eterno com a madrugada.
É uma relação de extremos, a nossa, como não poderia deixar de ser. É a hora em que eu funciono, de fato. Como já disse o grande Vinícius de Moraes: "de manhã, escureço; de dia, tardo; à tarde, anoiteço; de noite, ardo". Conotações sexuais travessas que possam vir atreladas ao último verso - e eu sei que alguém vai pensar "travesti" quando o ler, então, nem pensem. É o momento em que eu consigo pensar, criar, prestar alguma atenção, calcular, andar à frente. Mas é um instante injusto, e em um instante vago, o foco se perde, as luzes ofuscam e ameaçam desligar-se, e eu entro num mundo sombrio como a própria, aonde eu construi um lar. "Adaptabilidade" não é a palavra correta, mas é a primeira que me vêm à mente.
Como não poderia deixar de ser, o anoitecer é meu ciclo de vida. A criatividade gera profundidade de espírito que se encolhe de medo que produz. Se encolhe sozinha e cria um imaginário estelar, um maquinário de engrenagens cinzentas e lustrosas. Os motivos de atenção se esvanessem, restando pouco no que se focar e se perder senão o próprio. E a mente viaja livre no escuro ao longe, pela janela, nas luzes foscas de insones, aqueles como eu, ou amendrotados como de outrora.
Como haveria de ser, lá fora faz frio, como aqui dentro. Lá fora é o breu, e é bonito como a arte do acaso. Além do vidro, existe uma vida singular, de tantos pontos desfoques, e mesmo assim única.
Como haveria de ser, eu não vou à aula amanhã.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Sobre ter 19 anos (e algumas outras coisa)

- Stephen King, A Torre Negra Vol. I, O Pistoleiro - Introdução

"Os hobbits eram grandes quando eu tinha 19 anos (um número de alguma importância nas histórias que você vai ler).


Havia provavelmente meia dúzia de Merrys e Pippins marchando pelo barro da fazenda de Max Yasgur durante o Grande Festival de Mú­sica de Woodstock, o dobro disso em número de Frodos, e Gandalfs hippies sem conta. O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, era tremenda­mente popular naquele tempo e, embora eu nunca tenha passado por Woodstock (certo, é uma pena), acho que fui no mínimo um meio-hippie. O suficiente, sem dúvida, para ter lido a coleção e me apaixonar po ela. Os livros da Torre Negra, como a maioria dos romances fantás­ticos escritos pêlos homens e mulheres da minha geração (As Crónicas de Thomas Covenant, de Stephen Donaldson, e A Espada de Shannara, de Terry Brooks, são apenas dois dentre muitos), tiveram suas raízes nos de Tolkien.


Mas, embora eu tenha lido a coleção em 1966 e 1967, demorei a escrever. Reagi (e com um fervor algo tocante) ao ímpeto da imaginação de Tolkien — à ambição de sua história —, mas queria escrever uma história ao meu jeito e, se tivesse começado naquela época, teria escrito no dele. Isso, como a falecida Velha Raposa Nixon gostava de dizer, não seria direito. Graças ao senhor Tolkien, o século XX teve todos os duendes e magos de que precisava.


Em 1967, eu não fazia a menor ideia do tipo de história que poderia escrever, mas não importava; confiava que ia reconhecê-la quando ela cruzasse comigo na rua. Tinha 19 anos e arrogância. Sem dúvida arrogância suficiente para achar que podia cozinhar um pouco minha inspiração e minha obra-prima (como tinha certeza que haveria de ser). Acredito que aos 19 a pessoa tem o direito de ser arrogante; geralmente o tempo ainda não começou suas furtivas e infames subtrações. Ele nos leva os cabelos e n poder de explosão, como diz uma conhecida canção country, mas no Inndo leva muito mais. Eu não sabia disso em 1966 e 1967, e, se soubesse, não teria me importado. Podia imaginar — vagamente — ter 40 anos, mas 50? Não. Sessenta? Nunca! Sessenta estava fora de cogitação. E aos 19 é assim que deve ser. Dezenove é a idade em que você diz: Cuidado, mundo, estou fumando tnt e bebendo dinamite, por isso, se você sabe o que é bom pra você, saia do meu caminho... aí vai o Stevie.


Os 19 são uma idade egoísta, que restringe severamente as preocupações da pessoa. Eu tinha muita coisa na minha frente e era o que me importava. Tinha muita ambição e era o que me importava. Tinha uma máquina de escrever que carregava de uma porra de apartamento pra outra, sempre com alguma coisa para fumar no bolso e um sorriso na cara. Os compromissos da meia-idade estavam longe, os ultrajes da idade avançada, além do horizonte. Como o protagonista daquela música de Bob Seger, que agora eles usam para vender caminhões, eu me sentia infinitamente poderoso e infinitamente otimista; meu bolso (estava vazio, mas a cabeça estava cheia de coisas que eu queria dizer e o coração cheio das histórias que queria contar. Parece sentimentalóide agora; soava maravilhoso então. Soava muito tranquilo. Mais que tudo, eu queria penetrar nas defesas dos meus leitores, queria rompê-las, capturá-las e trocá-las, para o resto da vida, por nada mais que histó­rias. E sentia que podia fazer essas coisas. Sentia que tinha sido feito para fazer essas coisas.


Até que ponto isto parece pretensioso? Muito ou pouco? De um modo ou de outro, não peço desculpas. Eu tinha 19 anos. Não havia um único fio grisalho na minha barba. Eu tinha três calças jeans, um par de botas, a ideia de que o mundo era minha ostra, e nada do que aconteceu nos 20 anos seguintes provou que eu estava errado. Então, por volta dos 39 anos, os problemas começaram: bebida, drogas, um acidente de carro que mudou meu modo de andar (entre outras coisas). Já escrevi longamente sobre o assunto e não preciso voltar a ele aqui. Além disso, para você tanto faz, certo? O mundo acaba sempre lhe enviando a bosta de um Patrulheiro para retardar seu avanço e mostrar quem está no co­mando.

Você que está lendo isto sem a menor dúvida já encontrou (ou vai encontrar) o seu; eu encontrei o meu e tenho certeza de que ele vol­tará. Ele tem o meu endereço. É um cara mesquinho, um Mau Elemen­to, o inimigo jurado da piração, da putaria, do orgulho, da ambição, da música alta e de todas as coisas dos 19 anos.


Mas ainda acho que essa é uma idade muito boa. Talvez a melhor idade. Você pode rolar no rock a noite toda, mas, quando a música cessa e a cerveja chega no fim, você consegue pensar. E sonhar sonhos grandes.

O Patrulheiro mesquinho acaba mais cedo ou mais tarde po­dando você e, se você já começou pequeno, pois é, quando ele acaba, não sobra quase nada além da bainha do seu corpo. Arranje outrol, ele grita e sai marchando com o bloquinho de multa na mão. Por isso um pouco de arrogância (ou mesmo um monte) não é tão ruim, mesmo que sua mãe, é claro, tenha dito outra coisa. A minha disse. O orgulho vai embora depois da queda, Stephen, disse ela... e eu constatei — bem na idade certa, isto é, 19x2 — que você acaba mesmo caindo. Ou que é empurrado para a vala. Aos 19, podem mandar você parar no acosta­mento, sair da porra do carro, levar sua dolorida queixa (e sua bunda ainda mais dolorida) para o meio da estrada, mas não podem apreendê-lo quando você senta para pintar um quadro, escrever um poema ou contar uma história, pelo amor de Deus, e se por acaso você, que está lendo isto, é ainda muito novo, não deixe os mais velhos e suposta-mente mais vividos lhe dizerem nada diferente. Certo, você nunca es­teve em Paris. Não, você nunca correu com os touros em Pamplona. Claro, você é um moleque que três anos atrás ainda não tinha cabelo debaixo do braço... mas e daí? Se você não começa grande demais para sua calça, como vai caber dentro dela quando crescer? Deixe que ela rasgue, não importa o que os outros digam, esse é o meu ponto de vista; sente-se e fume a calça."

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Feliz Aniversário, Oráculo.

Feliz 19.

Hora de brilhar mais do que nunca.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Lembrança

Acho que você não pode fugir muito de quem você é, a princípio. Fundamentalmente, você é cimentado em tanta personalidade, tanto caráter enraizado no relógio, que fica difícil evoluir.
Eu sempre fui mais atrevido do que forte. Nunca fui uma figura de torque. Sempre fui regido de muita vontade, de raça, de sangue. Mas nunca tive a explosão, nunca fui atacante. Eu sou o mediador, o homem de meio. Eu sou o alvo primário do tiroteio, e eu caio fácil. Mas não sei ficar no chão. Meu pai me dizia que meu maior talento era ser atrevido dessa forma. Mas desde quando me tornei míope? Desde quando me tornei preguiça e não pressa?
Eu perco o foco, eu mudo de roupa. Eu escrevo notas em papel branco e colo na porta mas estou sempre distraído demais pra prestar atenção.
Eu não sou uma pessoa boa. Sequer medianamente gentil. Eu sou mal. Mas algo em mim não me deixa ser. Penso que não sei ser perverso; ou talvez o seja a ponto de saber que sendo cordial, posso conseguir mais fácil o que eu quero. Se assim for, eu sou também deplorável.
Eu estou o tempo inteiro sozinho. Eu nunca soube o que é ter uma companhia, nunca soube o que é me sentir confortável com alguém. Fosse quem fosse. E seja ainda quem for. Queria ser abençoado com um dia, que fosse, de conforto, só pra ter o gosto, pra saber como se sentem as outras pessoas. Pra talvez descobrir a minha missão.
Eu queria ter tanta fé em algo que eu fosse capaz de ser um mártir.
Eu queria tanta coisa, mas eu não sou nada disso.
Eu só faço o melhor que eu posso, quando me lembro de fazê-lo.

- Ao som de: Bat For Lashes - Siren Song -

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Rio 2016

- Jornal O Globo:


"COI chega ao Rio para inspecionar candidatura olímpica
27 de Abril de 2009 12:49



Membros do Comitê Olímpico Internacional (COI) chegaram nesta segunda-feira ao Rio de Janeiro para inspecionar a candidatura da cidade à Olimpíada de 2016. Os inspetores observarão a estrutura de locais de competição, e os projetos para segurança, transporte e infraestrutura da cidade.
O comitê de candidatura do Rio aposta em uma verba de RS 14,4 bilhões (cerca de R$ 32 milhões) e nas belezas naturais da cidade para vencer a disputa para sediar os Jogos. Os dirigentes defendem, também, que chegou a vez de a América do Sul receber uma Olimpíada pela primeira vez na história.
Os comissários do COI avaliarão a cidade durante a semana e concederão entrevista coletiva na sexta-feira. O Rio compete com Chicago, Madri and Tóquio pela Olimpíada. A cidade norte-americana e a capital japonesa já foram visitadas."






"Rio de Janeiro, 27/04/2009, Rio Olimpíadas 2016 - O prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o nadador Popov, irão recepcionar o comitê Olímpico internacional. Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo "




- Noticiário Internacional:



" Fucking pedophiles go to Rio de Janeiro support Rio's candidature to host fucking 2016 Olympic games. It's a great place to go, lot of fucking kids to fuck. Bad news: by 2016, all the fucking kids will be over 18. (Note to self: Find new kids to fuck in 2016). The Olympic Comitee liked its warm welcome in the airport.

Fucking city sucks. I've been there and got raped by a nigger, a crocodile and a mico-leão dourado. They made me eat my own shit in a scat tv show. A travesti fucked me. It hurts a lot to be raped.

But who gives a fuck?

Where is MY COW SWELL?

Besides kids, there are a lot of bitches, niggers and gays to fuck. Cross your fingers so that fucking Rio be chosen. You can fuck anyone you want and walk naked in the jungle. Nobody gives a shit to nobody there, either way.

Watch out for bandits. They may fuck you."


"In the picture, you can see the kids that were fucked by the Olympic Comitee, with the assistance of brazilian police and politicians."

(RESENHA DO ARTIGO INTERNACIONAL ACIMA TRADUZIDO PELO SITE OGLOBO: "Comunidade Internacional apóia candidatura do Rio 2016")


- Blog da Insônia:

"Governo incentiva cariocas a mostrar a sua hospitalidade aos membros da COI.

Através de campanhas de tevê e informes publicitários, o governo brasileiro incentiva os cariocas a demonstrarem sua hospitalidade e generosidade habituais para a Comissão Olímpica Internacional, afim de que o Rio possa ser escolhido como a cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Abaixo, um dos folhetos distribuídos demonstra como o carioca pode demonstrar o que tem de melhor para os estrangeiros, de modo que esse alegre povo possa obter o que os turistas tem à oferecer de melhor:"

"Rio 2016 EH NOOOOOOOIIIIIIS!!"

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A Curva À Frente

A velocidade com que os quilômetros regrediam o assustara.
- Não estamos muito rápido? - perguntou àquele a seu lado.
- Depende de onde se quer chegar.
Ele continuou fitando Aquele com as mãos ao volante enquanto calculava a distância entre a pergunta feita e a resposta recebida.
- E para onde estamos indo? - se rendia então à implacabilidade.
E media o vão de quilômetros entre sua pergunta e o silêncio que recebeu como resposta.
Permaneceram ambos dessa forma enquanto as centenas de quilômetros se transfomaram em dezenas.
- Não faça perguntas as quais você mesmo não é capaz de responder.
E Ele sentia seu coração apertar, mas apaziguar, e encontrar um motivo para não se sentir vulgar.
Mas ainda era incoerente.
- Eu ainda não entendi - e ainda assim, persistente.
Viu o rosto d'Aquele se transformar em repulsa irônica. O velocímetro teimava subir. E quando estava certo que, então, iriam mergulhar na filarmônica calada da noite:
- Você faz as perguntas erradas.
Arregalou os olhos, vendo placas de sinalização sob a fraca luz dos faróis. E tendo essa paisagem em mente, se permitiu um lampejo de sobriedade.
- Aonde eu quero chegar? - disseram a si mesmas as palavras.
- Não repitirei minha resposta.
Quando Ele formulava a próxima indagação, o motorista virou-se para ele em um instante muito breve.
- Se você não é capaz de responder à essa pergunta, não a faça.
- E por que não a devo fazer? - sentia-se preso em um carrossel de vozes.
- A resposta pode não lhe confortar.
Estava certo. Não o confortou.
- Você não me respondeu para onde estamos indo. - como o céu a se abrir, viu o rosto d'Aquele se firmar em um sorriso de um sarcasmo quase artístico. Mas ainda assim, implacável.
E como o silêncio o agredisse, revidou.
- Me diga, por favor, aonde estamos indo! - seus olhos se enchiam de lágrimas. Ele nem sabia porque.
E o silêncio parecia esmoecer.
E olhou para o retrovisor, e viu Aquele fixo na paisagem refletida no espelho, mais perto do que realmente aparecia nele.
E Ele sentiu-se entrar em êxtase, algo inquieto, vislumbrado.
E por um momento, eles se entreolharam, e Aquele viu perplexidade no rosto de seu passageiro.
- Você realmente não entendeu, não é?
Sentiu a confusão se misturar com o anseio, e a vontade se transformar em medo.
- Nós não vamos à lugar algum.
E todas as emoções se transformaram em lástima quando Aquele desafivelou o cinto, tirou as duas mãos do volante e apertou o pedal.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Esfaqueador

Estou realmente animado com os fatos recentes que vem ocorrendo em nossa pacata cidade violenta de Niterói.
Temos um psicopata nas ruas (quer dizer, se ele ainda não foi preso).
E, caras, um psicopata nas ruas é algo MUITO foda.
Não pelo psicopata em si ser algo foda, mas o estado de pânico, os rumores e os boatos são.
Parece coisa de filme de suspense. Um "Seven", ou um "Jogos Mortais", só que real!
Esse lance dos boatos é o que mais está me divertindo... virou uma verdadeira Lenda Urbana.

Já ouvi falar que o Esfaqueador (também chamado de Maníaco da Faca) é:

-Um cara muito alto, branco, loiro, bem-apessoado.
-Um cara muito alto, branco, de cabelos grisalhos e com cara de maníaco
-Um cara muito alto, negro, com óculos fundo de garrafa
-Um viciado em cola negro (foi o que o retrato-falado que a polícia divulgou no Jornal "O Fluminense")

Além do mais, a sua área de atuação e seu número de vítimas também variam muito. Já ouvi falar que ele atua:

-No Jardim Icaraí, onde esfaqueou duas velhinhas, uma garota e um homem
-Na Praia de Icaraí, onde esfaqueou uma velhinha
-No Ingá, onde esfaqueou 3 pessoas
-Na Região Oceânica (!!!) onde esfaqueou dois adolescentes.
-E, novamente segundo a polícia, conforme matéria publicada no Jornal "O Fluminense", o drogado teria esfaqueado apenas um comerciante após uma briga, no Jardim Icaraí.


Ou seja: O que temos na verdade é muito mais um estado de pânico coletivo, com boatos pipocando aleatoriamente do que de fato um psicopata pelas ruas. Lembrei de "O Cavaleiro das Trevas" e a histeria coletiva que o Coringa provocou. Se ele estivesse vendo a situação de Niterói, tenho certeza de que estaria rindo até morrer (haha) até agora.


E além do mais, considerando os fatos, o esfaqueador seria um psicopata soft-core, que (até o momento) nem matou ninguém... nada que dê para se preocupar (como os bandidos do dia-a-dia; desses sim, deviámos ter mais medo)...
Po, o cara tem uma faca, não é como se fosse um bandido aleatório com um revólver... na pior das hipóteses:

1) Você corre;
2) Se você for muito macho, tipo um Chuck Norris, e estiver armado com algo melhor, ou igual a uma faca, você briga com o maníaco, o prende, e ainda ganha a chave da cidade das mãos do prefeito;
3) Se a opção 1 ou 2 falhar, você leva uma facada e se arrasta até um pronto-socorro;
4) Se a opção 3 falhar, você morre e não há nada que você vai poder fazer (e me sentirei extremamente chateado por ter subestimado o Esfaqueador por meio deste post).



Pois bem então. Temos uma situação inédita (ou muito rara) em Niterói: Um Psicopata serial (não vou dizer seria killer, até porque ninguém morreu ainda). Não me lembro de nenhum nos últimos 10 anos, e aí está o resultado disso: Pânico. Cada pessoa tem uma teoria, ou escutou alguma história diferente. Você provavelmente escutou uma também, se quiser compartilhar, fique à vontade.

Agora, em uma cidade que é NATURALMENTE perigosa, com bandidos REALMENTE armados com revólveres em cada esquina, não entendo porquê nós (eu, você e a galera) levamos um cara com uma faquinha tão à sério. Why so serious?








EDIT: Fiquei sabendo agora, pouco depois de lançar o post que a polícia aparentemente prendeu o sujeito. Alguém aí sabe se a informação procede?

terça-feira, 14 de abril de 2009

Marleyson e Eu

"A pouco tempo, eu, jornalista recém-formado, casei com minha namorada da faculdade, Suzana e fomos morar em uma bela casa no Rio de Janeiro. No entanto, após pouco tempo percebemos que nossa casa estava muito vazia. Ainda não nos sentindo prontos para ter filhos, vimos que precisávamos saber se éramos maduros o suficiente para tê-los.
Como somos alérgico a animais, não poderíamos ter um gato ou um cachorro para criar. Por isso, após muito pensar, tive uma idéia genial: Adotaríamos um mendigo"


Dia 1:

"Saí pelas ruas à procura de um mendigo que quisesse ser adotado. Logo na primeira esquina, encontrei um mendigo imundo, fedendo a mijo e com farelos de biscoito Mirabel na boca. Perguntei qual era o seu nome, e ele disse que era Marleyson. Eu disse - "Bem, Marleyson, você não gostaria de ter uma vida digna?". Ao que ele respondeu que sim. Não fiz a proposta para adotá-lo, mas dei-lhe uma marmita e uma garrafa de chachaça. Saí dali com a minha caminhonete. Quinze minutos depois, vi que Marleyson estava dormindo. Supus que os 8 comprimidos de Dramin na marmita tivessem feito efeito, mas fiquei na dúvida se não teria sido a chachaça que o teria apagado. De qualquer forma, adotei-o colocando dentro de um saco de lixo, jogando na traseira de minha caminhonete e indo para casa."


Dia 2:

"Hoje Marleyson acordou agitado em sua casinha. Na verdade, a casinha foi um quarto improvisado que fizemos nos fundos da casa, onde o deixamos trancados para não fugir. Só o deixarei sair após adestrá-lo. Marleyson berrava para sair, implorava por cachaça. Dei a cachaça dentro de uma vasilha de ração e ele dormiu. Sucesso por hoje."



Dia 3:

"Marleyson acordou e novamente começou a protestar para sair, incomodando a vizinhança toda. Portanto, comecei hoje o processo de adestramento, batendo nele com um jornal enrolado até que ele se calasse. Ele mostrou um pouco de resistência no começo, tentou me morder, mas acabou cedendo. Irei diminuir a ração dele para diminuir a sua força física e enfraquecê-lo."



Dia 7:

"Hoje, Marleyson parou de implorar, berrar e arranhar a porta para sair. Ele já está bem mais fraco e calmo. Suzana foi brincar com ele, jogando uma bola para que ele fosse buscar, mas ele não quis colaborar, apenas chorou. Tive que novamente recorrer à tática do jornal para que ele fosse atrás da bola. Vai ser duro convencê-lo de que ele é um cachorro, mas já estamos obtendo alguns sucessos inegáveis. Ele já bebe a cachaça e come a marmita nas vasilhas de quatro e sem as mãos. Difícil mesmo será ensiná-lo a não mijar de pé."


Dia 38:

"Um acontecimento maravilhoso hoje: Marleyson parou de falar e passou a latir! Ainda não tenho certeza se foi um latido ou apenas um choro agudo de desespero, mas, de qualquer forma, é um grande feito!"


Dia 121:

"Finalmente, Marleyson se convenceu de que é um cachorro. Percebi isso quando, ao pôr cachaça, a garrafa escorregou e me molhou. Marleyson prontamente pulou em cima de mim, lambendo minha camisa e minha cara molhadas de 51. Meti a porrada nele com o jornal, mas finalmente ele entendeu o lugar dele e já posso deixá-lo sair da casinha."


Dia 130:

"Marleyson aceitou colocar a coleira. Passeamos na rua hoje. As crianças que o viam adoravam, montavam em cima e enfiavam o dedo no seu rabo. Foi uma festa."


Dia 190:

"Percebi que meu cachorro anda olhando para Suzana com cara de tarado. Conversei com minha esposa e ambos decidimos que o melhor a fazer era castrá-lo. Ela se ofereceu para fazer o serviço sujo."

Dia 206:

"Tomei uma multa por não recolher o cocô de Marleyson na rua. Eu não devia tê-lo desensinado a limpar a própria merda."

Dia 230:

"Suzana fez o anúncio: Está grávida! Finalmente, eu, ela e Marleyson seremos uma família tradicional!"

Dia 365:

"Hoje Marleyson fez aniversário de um ano! Eu e Suzana decidimos fazer uma piadinha interna, então fizemos uma cerimônia particular, botando bolo de fubá, convidando os mendigos para comer e muita cachaça pra beber. Água ia ser sacanagem também, né?"

Dia 454:

"Marleyson estava com a mania de roer meus sapatos e o sofá. Não sabia se era de fome ou de gastação com a minha cara. Então, peguei um martelo e arranquei os seus dentes."

Dia 505:

"Nasceu meu filho, com cara de mendigo. Matei Suzana com uma peixeira e joguei a criança viva no lixo. Peguei um jornal e enchi Marleyson de porrada como nunca. Acabei matando o animal. Joguei o corpo no mar. Amanhã, saio para procurar um novo mendigo para adotar."

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Miragem

Você teve tanto tempo pra pensar em mim, e escolheu agora, logo agora, justo esse momento, pra voltar a me ver desenhado no escuro teto do seu quarto enquanto se deita em seu leito de morte. Você teve Carnavais inteiros pra perceber que aquela rotina era vã e vazia, que o que você queria era sublimidade, sub-unidade, mas você entendeu atrasada e os transformou em Finados. Foram meses de gelo numa estirpe minimalista, mas você acreditou em Sol através das nuvens que desenhavam meu nome, e quando o tempo virou, você foi pega na reviravolta. E logo agora, justo agora, quando o oceano parara de se debater, voltava para o núcleo satisfeito em não o ser por inteiro, você se prosta de pé do lado de fora de todos os detalhes que reconstrui com cautela fanática, com seu coração em punho como uma pedra, e calcula a distância da fração mais doce do arremesso, com medo de completar o movimento, mas fazendo as janelas trincarem irritadas. Por que você não percebe que foi você a incendiária que ateou fogo ao equilíbrio do meu sono, e parcialmente resignada por seus erros, continua incendiando a minha loucura em levar tudo ao fim do caminho simplesmente por não tê-lo feito você mesma? O seu caminho é cravejado com rosas flamejantes que você não consegue cortar, não lhes consegue tirar a vida. Eu tentei te levar por um atalho, te ofereci a carruagem de um leão, quis te oferecer um lugar ao sol que eu não tinha, mas por você, criaria. E você se esvaiu em confetes, fez tripas de um coração inverso, e agora pensa mandar pelos ares uma história que tomou lugar no calor escaldante de um domingo e redecorar em um jardim. Por favor, não me faça perder o que eu não tive pra te dar, e ainda não tenho pra perder.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Parte Um, Verso Dois

15:13hrs, 22 de Agosto, 2008:

Já faz um mês desde que esse circo foi armado. Duas semanas desde a última vez que vi minha irmã, pra horas depois descobrir que o telefone estava morto. Pouco tempo mais desde que o idiota paranóico apareceu na porta do apartamento. Não faço idéia se minha irmã estaria viva à essa altura... A caminho do mercadinho, passei em frente ao prédio aonde morava o namorado dela, e não vi sinais da presença de alguém no apartamento dele. O que não quer dizer nada, afinal de contas, mas não tive coragem de me aventurar dentro do prédio... Distante da luz do dia, o único lugar que confio é meu próprio apartamento, e com ressalvas. Não sei o que pode haver nos corredores e halls dos prédios, esperando um incauto procurar uma irmã em um de seus apartamentos. Não sei se quero descobrir. Não sei sequer se quero saber se minha irmã realmente está viva... Não se faz as perguntas para as quais não se quer ouvir a resposta.
Fora o aperto no coração na minha passagem pelo tal prédio, a expedição até o mercado foi pacífica. Nenhum horror digno de um mês trancafiado em meu quarto me abordou. De qualquer forma, enquanto enchia meu fiel carrinho, meu escudeiro em tempos tão esquisitos, reparei numa coisa: as prateleiras estavam mais vazias do que na última vez em que saí do estabelecimento. E disso tenho certeza; afinal de contas, ainda não estou desesperado o suficiente pra começar a comer pickles, e vejo que as latas destes em conserva começam a ficar escassas. Bom sinal. Parece que não sou o único em regime semi-aberto de prisão domiciliar. Ao menos, ainda há alguém vivendo (ou sobrevivendo) por essa região. Penso que encontrar tal pessoa - ou pessoas - talvez me ajudasse a esclarecer o que aconteceu com essa cidade; talvez alguma delas saiba que sons estranhos são esses que ouço na noite. Mas descarto sair do apartamento se não por uma necessidade... Quanto mais ir ao mercado todo dia e tentar a sorte de, em um deles, encontrar a tal pessoa. Muita exposição desnecessária. Quanto mais quando eu nem se quer sei se ela ainda sobrevive desde a última vez que foi ao mercado...
Quando cheguei, a luz elétrica não funcionava. Temi que dessa vez fosse por definitivo, mas novamente, depois de dez minutos ela voltou ao normal. Prefiro nem pensar no que vai acontecer no dia em que a luz não voltar.
Me pego pensando novamente em minha irmã. Acho que a lógica não vai aguentar muito tempo mais... Sinto que em breve passarei em frente ao prédio e não terei forças para ignorá-lo. Sinto que em pouquíssimo tempo vou descobrir se ela ainda está viva.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Parte Um

17:58hrs, 14 de Dezembro, 2008:

Essa madrugada, ouvi gritos por de trás das cortinas zelosamente fechadas do apartamento. Pela voz, aparentavam terem sido emitidos por uma mulher; talvez apenas uma menina. Talvez tenha sido a quarta vez que ouço gritos desde que aconteceu; talvez eu tenha apenas perdido a conta. O conceito de tempo parece ter sido dilatado desde que tudo aconteceu. São tempos estranhos esses... Mas quanto tempo faz? Novamente, não sei dizer. O tempo parece distorcer quando se está trancado há tanto tempo dentro de um apartamento embarreirado.
Me intriga como a energia elétrica ainda funciona, apesar de alguns períodos de apagão extensos já terem acontecido. O suprimento de água cessou há, pelos meus cálculos, pelo menos três semanas; todas as estações de rádio respondem apenas com estática, exceto aquela que dizia, com certa autoridade, que "todos os civis devem barricar-se dentro de suas casas de forma imediata" e que "não há motivo para pânico". Gostaria muito de perguntar à mulher uivante da madrugada se "pânico" foi algo que cruzou sua mente enquanto ela gritava, seja lá qual tenha sido o motivo... Talvez ela tenha esquecido de esconder-se propriamente e tenha, dessa forma, descoberto a causa de toda essa paranóia; talvez, dessa forma, essa transmissão tenha salvo minha vida. Mas novamente, eu não saberia dizer. Nunca me atrevi a sequer espiar pra fora da janela à noite. Talvez tudo esteja em ordem lá fora e a mulher gritante tenha apenas se assustado com algum tipo de roedor doméstico; talvez paranóico esteja eu, na verdade, e pra qualquer um dos dois lados.
Felizmente, a natureza me concedeu um pouco de chuva pelo início da tarde. Apenas o suficiente pra encher os reservatórios, e não longa demais que me impedisse de trazê-los para baixo antes do pôr do sol. Nem tudo são lástimas, no fim das contas. Ao menos, poderei tomar banho pela manhã.
Começo a me preocupar com a reserva de comida, no entanto... Temo que em breve terei que deixar o apartamento mais uma vez para procurar comida. Faz tanto tempo que não saio da minha fortaleza que não sei dizer se sair ao dia ainda é ao menos mais seguro que desbravar à noite para a morte certa. Quem sabe o que pode ter saído de dentro dos bueiros e fachadas decrépitas nesse meio tempo... Mas novamente, quanto tempo?

quinta-feira, 12 de março de 2009

Quinta-feira 12

Quinta-feira 12, tudo se prepara para dar errado.
Tudo começa a se encaminhar para o pandemônio da Sexta-feira 13.
O circo de tragédias da vida se arma, e um palhaço se prepara para colocar fogo na tenda em noite de casa cheia.



Pois....


Um gato preto se prepara pra cruzar uma estrada,
E uma motorista, desviando, vai morrer estatelada.
E um bandido malvado irá assaltar os passantes
E matar um empresário, que bem pouco antes
Matara com duas balas a mulher e o amante.

Sendo que este amante era veterinário
E com sua morte (na SUIPA), um funcionário
tenta alimentar os cães, mas num acidente,
contamina a água dos cães com detergente
e eles morrem (espumando) no produto de servente.

E criancinhas que veriam os cães, de um orfanato,
caem todas em pranto quando descobrem o fato,
Mas não sofrem muito, pois um botijão de gás,
Explode, fazendo com que todos descansem em paz,
E parem de se lamentar por não conhecerem seus pais.


E os bombeiros, quando chegarem, não poderão fazer nada
Pois terão esquecido de encher o caminhão de água,
Mas também não soferão muito por serem incapazes
De salvarem criancinhas que nunca terão lares,
Pois outro botijão explode, e também os manda pelos ares.

E você , fica achando que está seguro?
Pois, se na Sexta-feira 13, você vir um gato escuro,
Se prepare pro pior, pois você também vai morrer,
Apenas torça para ser rápido e pra não sofrer,
Pois o Sábado 14 você não irá conhecer.

Retrovisor

Eu vi as coisas muito mais claras depois que você apareceu no meu retrovisor. Mas claro não é o suficiente. Descarte essa mensagem. Tentei aguentar o que não pude perdoar. Vesti a couraça, amei a blindagem, e eu vi as coisas mais claras quando você entrou no retrovisor, e nada disso me fez sentir em casa. Descarte essa mensagem. Eu pego velocidade, força, torque, cada vez que você tenta me rebaixar, me destruir, me foder. Eu mal posso acreditar que finalmente as cortinas foram levantadas, mas o dia não é dos melhores lá fora. Eu vi as coisas infindamente mais claras quando você surgiu no meu retrovisor, mas nunca por definitivo. Definitivo seria morrer em mim, como o equilíbrio é fatal para a biologia. Parecia energia, parecia sonante, mas era só distorção, dissonância, vinte e nove anos sem motivo, vinte e nove dias sem direção. Descarte essa mensagem. É hora de emancipar. O acerto não leva a lugar algum senão aonde já se encontra, e meu erro me engrandesce. Não estou pronto pra agradecer ou perdoar, e ainda não posso respirar. Pare de pesar em mim. As chaves estão no chão, e nós estamos unidos por algo que deveríamos aguentar. O medo nos une, e eu não sei perdoar. Sufocando... Eu olho pra outro lado, são feridas sem reflexo. Fui eu mesmo, sem definição, sem calor, sem motivo, sem direção, com a cabeça à seus pés, um idiota à sua coroa, e a minha ingenuidade em uma balança de prata, tentando aguentar o que não sabia perdoar. A iminência acorrentada de um touro selvagem, sem afirmação. Eu vi as coisas muito claras no meu retrovisor, e você estava lá, mais próxima do que aparecia nele. Descarte essa mensagem, jogue esta garrafa de volta ao oceano, arranque essa página dos livros de História, destrua todas as placas de sinalição, apague todos os mapas. Apague e redesenhe todos os mapas. E esqueça meu nome, esqueça meu rosto. Esqueça meu nome. E seja. Porque vai chover. E quando começar, nunca mais terminará. Eu vi as coisas muito mais claras uma vez que você esteve no meu retrovisor.

- Ao som de: Pearl Jam - Rearviewmirror -

terça-feira, 10 de março de 2009

Peripatético

Este post eu já estou guardando faz (MUITO) tempo, só nunca tinha tido tempo pra postar...agora tive... de volta às aulas, de volta ao batente, não?

* * *

Já estou no terceiro período da UFF, por mais absurdo que isso pareça.


Agora, todas as minhas aulas são feitas na faculdade de Direito, um prédio isolado de todos os outros, o que ajuda a reforçar o preconceito estúpido que o Direito tem com as outras ciências humanas (que paradoxalmente a faculdade tentou quebrar nos dois primeiros períodos).

Mas, no primeiro período, algumas vezes por semana, os alunos ainda visitavam outras faculdades para ter aula. Mais precisamente, a faculdade de economia (para aulas de economia política) e o campus do Gragoatá (para aulas de introdução à sociologia).


A faculdade de economia eu detestava. Era um prédio tão isolado quanto o de Direito, só que não tinha elevador, mas sim uma rampa escrota que cansava pra cacete pra subir, pois a sala em que estudávamos era no segundo andar e no fim de um corredor (não sei se eles punham os alunos de Direito numa sala mais isolada só de sacanagem, mas eles botavam).

Já o Gragoatá eu adorava. A gente estudava no Bloco N, ou Bloco O, não lembro. Só sei que era o último bloco, isolado, no fim do Gragoatá, ao lado da Baía de Guanabara. Era uma caminhada e tanto da faculdade de Direito até o Gragoatá, e outra ainda maior até o bloco lá no fundo. Mas ainda assim, eu gostava.

Não sei exatamente o porquê, mas o Gragoatá é bonito. Tem uma área verde ampla, árvores...dá até pra entender porquê o pessoal curte tanto fumar baseado lá. Se eu curtisse um, com certeza ia passar o dia inteiro lá fumando. Vendo os pássaros, as barcas passando na baía, o pessoal jogando bola, o pessoal de filosofia tendo aula ao ar livre, um casal se amassando, uma galera fazendo piquenique...

Tudo tinha uma certa beleza. E, apesar de eu matar quase todas as aulas, achava o professor foda.

A matéria era Introdução à Sociologia. O professor era maconheiro. Seu nome era Waldecir, e tinha o cabelo igual ao do Seu Jorge, um monte de dreadlocks. Na verdade, ele era IGUAL ao Seu Jorge.

Já fomos pra aula sabendo histórias do cara. Ele era foda, tinha pós-doutorado em Sociologia na França, mas era completamente escaralhado. Um período antes do nosso, ele perdeu todas as provas dos alunos. Falou que tinha perdido em cima de uma árvore. Acabou dando 9,5 pra todo mundo.

Ainda assim, no primeiro dia de aula, a turma toda foi para o Gragoatá. Esperamos do lado de fora do prédio e nada do professor aparecer. Dali a pouco chegou um mendigo, andando de bicicleta. Todos os viram passar e ficaram quietos. Dali a pouco, uma aluna que estava esperando o professor dentro da sala saiu do prédio e chamou todos para aula. O mendigo era o professor.

Todos se sentaram. O professor sentou-se. Escondeu as mãos entre o rosto. Ficou uns 2 minutos parado. Recompôs-se e perguntou qual era o nosso curso e qual matéria ia dar. Explicamos e ele começou a aula.
Mandou que todos anotassem em seus cadernos duas palavras. O ser e o devir. Começou a falar que o ser era estrutura, universo, luz. O devir era construção, passagem. Mandou todos pegarem o caderno e anotarem sobre o Elã Vital. Todos na sala se entreolharam e ficaram perplexos. Mas que merda é aquela?

Ele continuou a falar umas merdas. Dali a pouco, um aluno, que, supus na hora ser igualmente maconheiro, pediu a palavra. O professor concedeu. O aluno começou a falar sobre sua teoria, de que o homem descenderia do morcego. Explicou que o morcego vivia em cavernas próximas ao mar, aonde surgiu o homem. E dali viria o desejo inato do homem de voar.

O professor falou que conversaria mais tarde com o aluno. No final da aula, quando todos estavam do lado de fora, os dois passaram fumando maconha. Explicava muita coisa.
Assisti a algumas poucas aulas depois disso. Depois, comecei a matar a aula, ou até mesmo a ir para o Gragoatá e ficar no Campus fora de sala, olhando as barcas e a natureza. O professor não dava presença mesmo...

No meio do período, apareceu a oportunidade de mudar de professor. Eu mudei junto com metade da turma. Fui pra aula de uma mulher, no Gragoatá também. Pelo menos ela dava aula de Sociologia. Mas, foda-se, também matei quase todas as aulas dela.

Bem. Perto do final do primeiro período, em uma das aulas que eu fui, estava tirando xerox de uns textos que a mulher passou. Aí aparece um porteiro e fala: "E aí Rodrigo, tudo bem?".
Olhei para ele e reconheci o professor. Caralho, ele tinha raspado o cabelo. Tava pior. Pensei: "Caralho, ele deve ter fumado o cabelo também".

Perguntei o que tinha acontecido. Ele disse: "Ah, deu piolho, tive que raspar".

Eu pensei: "acho melhor ir embora logo. Já ouvi Filosofias sobre o Devir o suficiente por uma vida inteira"

Óbvio (pelas razões nada óbvias que as coisas estranhas acontecem) que isso não deu certo. Quando eu ia me virar, percebi que os outros alunos que estavam comigo na Xerox tinham sumido. Waldecir me disse: "Vai sair da faculdade agora? Eu deixei minha bicicleta no portão. Te acompanho até lá".

E assim, saí do prédio, Campus do Gragoatá afora com o professor. E ele começou a sua lição.Primeiro, me questionou sobre a vida, através do exemplo da sua bicicleta. Explicou que se a crise que vivíamos hoje existia, era porque todos estávamos inseridos na economia. Explicou que se todos éramos afetados pelo preço do petróleo, era porque usávamos o petróleo. Já ele, que andava de bicicleta, não era afetado.

Porque, afinal, o dinheiro não existia. No fundo, o dinheiro, a economia, é ficção social. É um pedaço de papel que deveria servir como representante da posse de algum elemento, como uma carta de crédito. No entanto, não existe mais o elemento representado, logo, o papel-moeda acabou se tornando o elemento. Nesse momento, ele se abaixou, pegou um pedaço de grama do Gragoatá e disse:

"Isso existe. Isso é real. Todo o resto, é Transição."

Continuamos andando. Ele falou que usava as mesmas roupas há 30 anos, e que apenas as tinha porque tinha recebido como presente. Falou da realidade do mundo, da falsa apreensão que fazemos dos fatos que observamos. De como nos tornamos alheios a tudo que não nos interessa nesse mundo, e quando algo que não nos interessa nos ocorre, nosso desejo é alienar este fato também.

Nosso passeio foi curto, deve ter durado uns 15 minutos, apesar de andarmos num passo lento.

Mas, por um instante, me lembrei de Sócrates. Lembrei de como certa vez escutei que suas aulas eram feitas em passeios ao ar livre, onde, caminando com seus alunos, os Peripatéticos, aplicava seus conceitos de Ironia, Maiêutica e as suas lições aleatórias de humildades.

Por um momento, senti passsar pela minha cabeça um estalo, um leve tinido. Era como se toda a verdade essencial do mundo, com seu devires, transições, e imagens do pensamentos fossem se revelar de uma vez só. Senti passar raspando um brilho sufocante, como se pela primeira vez na vida eu fosse compreender a vida, o universo e tudo o mais, a pergunta essencial da vida cuja resposta pode bem ser 42; ou 19; ou sabe-se lá o quê.

Mas esse lampejo durou só um instante e logo em seguida se apagou, pois...

Chegamos na porta do Gragoatá , e paramos. Ali estava uma bicicleta velha, enferrujada e sem cadeado. O Professor disse mais algumas coisas, que foi muito bom ter um aluno o escutando, e me disse para assistir algumas aulas dele de vez em quando, que um dia desses um amigo dele, um gênio iria dar uma palestra em uma de suas aulas.

Nos despedimos, ele montou em sua bicicleta e saiu pedalando, tranquilo com a vida.

Não fui nas aulas dele que falei que iria, não vi a palestra de seu amigo e tampouco o vi mais. No período seguinte, a Coordenação do curso finalmente o demitiu, substituindo-o por algum outro professor mais tradicional.

Waldecir evaporou. Não tive mais notícias dele, ele sumiu da face da terra; e certamente não é um sujeito que se possa imaginar o próximo passo. A certeza é que se poetas não morrem, se encantam; e se gays não morrem, viram purpurina;. Waldecir eventualmente virará fumaça de baseado e se espalhará pelos ares.

O passeio do Gragoatá me marcou de algum modo. Nada que vá mudar minha vida, nem afetar o meu destino. Porém, por um instante, vendo o professor partir em sua bicicleta, me lembrei do encontro que Alexandre, O Grande teve com Diogénes: Ao perguntar se poderia fazer algo pelo filósofo, este apenas respondeu: "Não fique parado em minha frente, você está tapando o sol. Não tires o que não podes dar-me".

E assim como Alexandre disse que, se ele não fosse Alexandre, O Grande, gostaria de ser Diogénes, naquele momento, e só naquele momento, vendo-o ir embrora, pensei:

"Se eu não fosse ser um cara foda quando crescesse, eu ia querer ser Waldecir".

quarta-feira, 4 de março de 2009

Giz Branco

Sente-se aqui. Deixe-me ensinar sobre o que há mais além. Em um minuto, ainda há tempo, e eu seria o primeiro a admitir. Admitiria que achei perdão em sua existência. Admitiria que é só medo, tão irracional quanto o objeto deste. Analisando friamente, o enredo então engrossa, toma ares de antítese. Estas que valsam rodopiantes sobre um eixo de amantes e formam um vendaval um tanto nostálgico. Os chifres sob o capuz dos santos, a rosa fiel e lúcida no lodo de odores familiares. Estes que dizem mais em lembranças decrépitas de uma outra vida, de outras pessoas, em outro tempo. Lembranças lunares, lembranças de Sol, lembranças roubadas de outra pessoa. Tão descuidadas, incautas e ingênuas, a ponto de não entenderem os desenhos de giz na calçada. No mangue dessas ruas, as calçadas são um campo de rosas em giz. E dos bueiros escapam fragrâncias adocicadas como o ciclo da vida em sua complitude, balas de canhão em forma de aromas diversificadamente eternos. Desço da minha solidão e me assusto com as ruas pintadas de branco com as lembranças roubadas de outra pessoa que um dia fui.

- Ao som de: Circle Takes The Square - Patchwork Neurology -

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Coisas da vida...

Pois é, pode até falar que eu só tenho falado no carro ultimamente, mas é porque acho que essa nova fase tem algo a ver com maturidade. Ou algo do gênero, se ligou? Como eu tenho coisas para fazer mais importantes do que trabalhar (não perguntem quais, eu não saberia explicar), acho que descontar a culpa de tudo que me ocorre no carro é uma boa idéia.

Pois bem, contextualizando: Meus pais estão viajando, logo dos 3 carros daqui de casa, um tem ficado comigo, e o outro com minha irmã. Graças a Deus, não preciso mais andar de ônibus.

No entanto, como não trabalho (acredito que Deus tenha algo a ver com essa minha decisão), não tenho dinheiro para colocar gasolina no carro. Portanto, estou tentando manter o tanque cheio pelo máximo de tempo possível (pelo menos até domingo, quando eles voltam).

Para tal, de vez em quando, durmo em Icaraí, na casa da minha avó, pois assim, não preciso subir para Itaipu de noite só pra dormir, o que me economiza alguns preciosos litros de gasolina.

Hoje (ou melhor, ontem) foi um desses dias em que durmi lá. Como eu já tinha me programado desde ontem, deixei algumas roupas dentro do carro para vestir hoje (antigamente eu levava tudo dentro de uma mochila, que eu levava comigo dentro do ônibus. Agora, ponho tudo dentro de uma mochila, que eu ponho na mala. Eventualmente, vou me desfazer da mochila e deixar tudo na mala mesmo).

Bem, ontem, quando cheguei na casa dela, estava exausto, logo subi para o apartamento sem me importar em pegar as roupas.

Hoje, pela manhã, fui tomar um banho, pois teria uma entrevista de emprego à tarde (é, TERIA).
Eu passei para a prova de Monitoria de Inglês do Ph, e faria hoje a entrevista de emprego na Tijuca. Tinha até separado minha carteira de trabalho para ser carimbada, para o caso de ser aprovado na entrevista.

Ok, tomei o banho. E vesti a mesma roupa (e a mesma cueca, e a mesma meia, etc), pois toda a roupa estava no carro e tive preguiça de ir buscá-la. Pensei: "Bem, o carro está num cantinho escuro da garagem, onde ninguém nunca vai. É só ir no carro e trocar de roupa lá dentro".

E de fato, foi o que eu fiz. Almocei e fui para a garagem. Lá estava meu carro, num canto isolado da garagem, escuro, pois a lâmpada funcionava com um sensor de movimento, e só alguém perto do meu carro poderia acioná-lo.

Peguei uma roupa e uma cueca na mala e fui para o banco da frente trocar de roupa. Logo o sensor de movimento apagou e me deixou no escuro. Ótimo. Tirei a calça, a cueca, joguei tudo no banco de trás e....

A luz acendeu. Apareceram todos os porteiros do prédio e mais uns porteiros. Vieram na direção do meu carro. Pararam ao lado da minha porta, onde eu estava nú da cintura para baixo. Rapidamente, puxei a calça do banco de trás e joguei-a por cima do meu colo. Os porteiros começaram a mostrar para os pedreiros uma parede exatamente ao lado do meu carro, onde tinha uma rachadura. Os pedreiros assentiram, e começaram a circundar meu carro, agora todo iluminado, olhando a rachadura na parede. Os porteiros, que me conhecem, acenaram para mim e sorriram. Acenei de volta, e fingi estar mexendo no rádio, escutando música.

Pensei em ligar o carro e sair dali, mas reparei numa coisa: na pressa, tinha deixado a chave dentro da mala.

E ali estava eu, nú, sem poder sair do carro para eles poderem consertar a parede, e sem poder sair com o carro, pois não tinha a chave. Também não podia botar uma calça ou uma cueca, pois senão todos reparariam no que eu estava fazendo, pois seria um movimento bem óbvio, e eu dificilmente conseguiria olhar os porteiros com respeito após aquilo. E se alguém chegasse bem ao lado do meu vidro para falar comigo, ia reparar que a calça não estava exatamente no meu corpo...

Fiquei ali parado pelo menos uns 15 minutos. Os porteiros de vez em quando pareciam que iam vir até mim, mas na última hora mudavam de idéia. Os pedreiros estavam posicionados em frente, ao lado e atrás do meu carro.

Até que em um momento, todos magicamente se afastaram um pouco. Corri, peguei a cueca e a calça nova e coloquei. Saltei do carro, peguei uma camisa nova e a chave do carro. Deixei ele lá mesmo (eu não ia sair com ele, só fui pegar a roupa mesmo).

Fui para a portaria e cumprimentei os porteiros. Saí para a rua disposto a fazer a entrevista e arranjar o emprego na monitoria.

Depois, pensei melhor, vi que o emprego era escroto, faltei à entrevista, e, por conseguinte perdi o emprego. Ótimo =]

sábado, 7 de fevereiro de 2009

1 mês de carteira

- 2 carros batidos (e mandados pra oficina)
- 4 engarrafamentos hardcore/ heavy-metal em ladeiras
- 2 "quase-acidentes letais"
- 1 multa por furar sinal com radar (ninguém sabe ainda)
- 2 vezes travando o trânsito parado na Gavião Peixoto para entregar filmes (parando no meio da rua óbvio. Sou meio ruim de baliza)
- X² paradas no meio da rua por motivos aleatórios (com o pisca alerta ligado para fingir defeito no carro)
- 1 porta de carro quebrada (não abre nem fecha mais)
- 1 Alarme de carro quebrado (não funciona mais)
- 1 pneu furado 1h da manhã, que ninguém conseguia desaparafusar (necessário encontrar um borracheiro de madrugada)
- 2 batidas "leves" numa mesma baliza, no carro da frente e no de trás (o famoso "beijinho")




Cara, não perder a carteira provisória em 1 ANO será uma epopéia!

Penugem de Corvo

Palavras me parecem amplamente triviais no momento. O que eu poderia dizer que não sentisse, e pra que dizer se já as sinto? O que dizer que me faça não sentir? Não existe remédio, não existe um projeto. Não existe mais uma rota de fuga. Nada é tão pueril quanto métrica e rima quando não se pode ver o chão da beira do precipício. Nada é tão lúrido quanto uma revolução poética em calçadas desenhadas em giz branco. Ver e aceitar pelo que se é. Presumo que isso seja um túnel, porque mesmo estando escuro, consigo andar em frente, mas o movimento lateral é limitado. E no escuro desse polígono ouço vozes. As minhas, a sua, de nós dois, desconhecidas vozes, desesperados murmúrios, gritos em terror, aterrorizantes balbúcias, enquanto os ramos se desfazem e as raízes se tornam. E como lampejos as luzes tornam a se ligar, e vejo formas desconexas e horripilantes beirando as paredes como fantasmas do meu passado, como olhos vermelhos na noite veloz e saciável, uma pena de alívio pela retribuição vulgar. Espreitando. Esperando pelo escuro com os olhares vingativos do perdão; esperando as luzes falharem mais uma vez para relançarem seu tribunal de vozes alucinadas. Eu sei como isso termina: em pedidos de desculpa e tinta em páginas brancas. Como séculos de sangue virgem correndo em minhas veias tramam para convencer minha mente ávida que o prazer nada tem a ver com o milagre da necessidade. A necessidade tempestuosa de aves de rapina. Nada é tão lúcido quanto uma promessa nublada por psicose. Essa é uma confissão de meu espírito, cicatrizes negras à prova d'água num quadro branco, puramente só. Um manifesto lentamente construído de tremer como base na ponte de uma canção e cada vez menos como o poema que escrevo. O porque do soneto se fazer estéril sarcasmo. É tudo o que tenho: linhas tintas e caridosas, um refrão com vozes harmônicas, uma oferta, uma epopéia filarmônica, nesse túnel em chamas de vozes em crescendo, crescente tragédia.

- Ao som de: Blink 182 - Adam's Song -

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Ode Ao Verão

Se lembra do verão? Dos longos dias de sol? Muito calor, poucas preocupações. E tão pouco tempo. Você se lembra das belas noites de verão? Um tapete de estrelas no céu, tanta vida nas ruas, tantos bailes, e tão pouco tempo. Você se lembra das amizades que fez durante o verão, dos amores sazonais?
Eles morreram, todos eles. O tempo os apagou, como envelhecemos, prematuramente - como o Sol e a Lua, como eu e você. Você não fez questão de mantê-los vivos. E então, por que eu não consigo encará-los?
Se lembra dos últimos instantes de verão? Nossos últimos bons momentos, os últimos minutos de calor. Se lembra o quanto foi bom dividirmos essa página, antes de voltarmos pra casa e percebermos que nossos olhos haviam voltado ao cinza habitual, e que esqueceríamos em muito breve o que significa estar acordado? Talvez por isso me sinta tão gelado. As mais belas histórias ficaram pra trás no seu diário, e à frente, existem páginas brancas que nunca serão tão quentes como aquelas. Tão vívidas, tão tenras. Toda vez que deixo o pânico falar por si, eu vejo como as coisas eram debaixo do sol escaldante do verão. Precisei disso por anos: ter o verão todo ano. Mas vi meus verões cada vez mais borrados, fluidos, esmoecendo na paisagem de um bilhão de nuvens cinzas, no tom dos seus olhos.
Os seus verões mudaram. Não existem amontoações nas ruas, e não existe sol. Não existem os amores, não existe a liberdade e o conforto, não existe nada além de você e sua fundação de pedra negra. Houve um tempo em que enterrar os pés na areia quente era confortável, mas esse tempo morreu com aqueles e as situações que o habitavam. Fazê-lo dói os pés, mas dói mais o coração. Porque ele sabe. Nunca mais se sentirá tão leve como num verão. Tão livre, tão novo.

No seu verão, faz calor pra te lembrar que os invernos são quase glaciais.

- Ao som de: The Sound Of Animals Fighting - Another Leather Lung -